Nina Sayers é bailarina de uma companhia nova-iorquina de
ballet. Sua vida é inteiramente dedicada à dança. Mora com a mãe. O diretor
artístico da companhia (Thomas) decide substituir a bailarina principal, Beth,
na apresentação de abertura da temporada. Nina é sua primeira escolha,
mas surge uma concorrente, a nova bailarina Lily, que deixa Thomas
impressionado. O Lago dos Cisnes requer uma bailarina que seja capaz de
interpretar tanto o cisne branco com inocência e graça, quanto o Cisne Negro que
requer malícia e sensualidade. Nina se encaixa perfeitamente no papel de cisne
branco, porém Lily é a personificação do Cisne Negro. As duas desenvolvem uma
amizade conflituosa, repleta de rivalidade, competição, ciúme, e Nina é forçada
a entrar em contato com seu lado mais sombrio.
Cisne Negro faz uma viagem emocionante e aterrorizante à
mente de uma jovem bailarina. A bailarina é movida pelo desejo de superação,
por tornar-se a primeira bailarina. Interpretar Odette não é problema, uma vez
que ela partilha com a personagem suas qualidades metódicas e virginais, é
pura, ingênua e inocente. O desafio é a interpretação de Odile, o Cisne Negro,
a encarnação da sensualidade e sedução. Nina é uma garota amargurada,
seriamente perturbada, obcecada pela perfeição. O filme começa sob um foco de
luz que parece desesperado em focar a face da bailarina, mas sem conseguir
iluminar a angústia dos seus olhos e a dor de sua face. Essa bailarina
que se vê obrigada a partir nessa viagem angustiante em que tem que deixar um
lado seu, que até aquele momento ela própria desconhecia, tomar conta de si.
Seu reflexo negro (como o cisne que precisa interpretar).
O espectador acompanha a dor das suas articulações estalando
ao acordar, a preparação dolorida das sapatilhas cheias de rasgos e dobras, dos
diversos machucados, do suor, da disputa entre as bailarinas, da disciplina e
do peso por trás daqueles movimentos que enchem o palco de beleza. Porém o filme é muito mais sobre esse impulso
violento e destrutivo que carrega a protagonista em direção a essa nova
pessoa que ela não desconfiava ser, mesmo que isso lhe custe a sanidade.
No pesadelo do início, ela é tomada pela figura amedrontadora do feiticeiro.
Ela acorda assustada. Conta para a mãe que teve um sonho louco, que
estava dançando o cisne branco, mas era uma coreografia diferente, mais
parecida com a do Bolshoi – o prólogo, quando Rothbart coloca o feitiço nela. Em
seguida aparece seu quarto. Um quarto de menina, todo rosa, cheio de bichinhos.
Menina – Nina que não teve chance de crescer.
Vive dominada por uma mãe controladora, intrusiva e
invejosa, que teve uma gravidez indesejada aos 28 anos, no auge da carreira e
isto a deixou frustrada e amarga. Ou
seja, Nina para nascer, matou o sonho da mãe de ser a Rainha-Cisne. A
mãe então quer fazer da filha o que não pode ser. Superprotege, mas é uma
superproteção que disfarça uma rejeição e não dá à filha o direito de ter sua
própria individualidade, de crescer, tornar-se mulher, assumir a sua
sensualidade. Todo o seu lado impulsivo, agressivo, que todos nós temos, e que
precisamos ter para crescer, é totalmente negado e cindido. Todo esse lado está interditado, como um
feitiço. Ela não consegue integrar. Não consegue integrar
porque ainda encontra-se fundida na mãe, numa simbiose doentia, numa corrente
de amor e ódio. Nina que pretende a independência, mas a culpa pelos ataques
fantasiados e reais à mãe, não o permitem. Assim como Odette, enclausurada num corpo de cisne, Nina tem seus desejos
interditados, enclausurados num cárcere psíquico, assim como as
pacientes anoréxicas e bulímicas, onde o caminho pulsional está interditado
geralmente por conflitos importantes com as figuras materna e paterna.
No filme, chama à atenção a ausência total e completa do
pai. Mas Thomas, o professor preenche a figura paterna. O professor que a
seduz, ela quer ter uma relação sexual com ele para poder se sentir viva e se
realizar, mas ao fazer isto sente que está tendo relações com o pai e;
portanto, estará ocupando o lugar da mãe e, aí, tendo que se matar. A
culpa é insuportável, e na sua imaginação doentia ela não a suporta tendo então
que dar fim à sua vida. O professor se confunde com o pai. Ela não consegue
discriminar. Com o filme, acompanhamos a desintegração da saúde mental de Nina,
devido à pressão do diretor, às duplas mensagens da mãe que superprotege e mal
disfarça uma rejeição violenta e a chegada de uma concorrente. O diretor e o
fotógrafo não economizam em uma inquietação das imagens e nas opções visuais
que formam esse caminho, ilustrando essa viagem sem volta.
A mãe vê arranhões em suas costas e a chama de “garota
doce”. Ela tem comportamentos autodestrutivos, como podemos ver nas várias
cenas em que ela arranca a pele, rasga a sapatilha, rasga a unha do pé, vomita,
etc. Tudo isso é uma tentativa de expulsar essa mãe violenta e rejeitadora. No
Ballet precisa ser agressiva inclusive porque toma o lugar da primeira
bailarina, Beth que é aposentada. Ela se culpa por ocupar o lugar da Beth,
assim como se culpa por ocupar o lugar da mãe.
Nina tem que lidar também com uma rival quando chega Lily.
Já que chega essa nova garota, ela vai para o banheiro vomitar. A mãe
telefona o tempo todo e ela também telefona para a mãe. Mas ao mesmo tempo,
escutamos uma conversa da mãe com outra pessoa, dizendo que as meninas não têm
a magia da Beth. Aí vemos a mãe dando uma dupla mensagem, quer que a filha seja
perfeita como ela gostaria de ter sido, mas ao mesmo tempo, elogia a outra,
dizendo que a Beth nunca fez nada menos que perfeito. Aí neste momento tem uma
cena muito interessante: Ela toda de rosa cruza no corredor com uma garota toda
de preto que tem o rosto dela. Ou seja, é o seu lado negro que se encontra
dissociado. Quando chega em casa abraça a mãe e começa a chorar. Aparece
aí o pé sangrando, numa tentativa de mostrar o esforço que essa garota está
fazendo para ser perfeita. A mãe vai tratar do pé e diz que lembra quando tudo
começou, lembra que era ela quem levava a filha a cada uma daquelas aulas, ou
então ela ficaria completamente perdida, etc. Ou seja, ela devia todo aquele
sucesso ao sacrifício da mãe.
Mas o diretor diz que só vê nela o cisne branco, ela é bela,
assustada e frágil, faz todos os movimentos corretos, mas não se entrega. E
afirma que ela tem que surpreender, transcender. Ela que tinha ido até o
diretor com o batom que havia roubado da Beth, e estava mais sedutora, dá uma
mordida no Thomas quando este a beija. É neste momento que ele descobre
que ela também pode ser autêntica, também pode mostrar seu lado mais impetuoso,
violento e hostil. Gosta disso e resolve dar-lhe o papel de cisne negro. Na
mesma hora aparece no banheiro a palavra – VADIA. Seria uma alucinação? Não
seria ela se recriminando?. A cena dos quadros no quarto da mãe, cheio de
auto-retratos, mostra uma mãe narcisista e, diante de tanta pressão, começa a
ter alucinações, vê as figuras se mexendo, como se todas a estivessem
recriminando. Arranha mais ainda as suas costas, e a mãe vem com um
enorme bolo que havia comprado para festejar. Ela não quer comer, mas a mãe
ameaça jogar o bolo inteiro fora, numa grande chantagem. Então ela come o
bolo.
Começamos então a acompanhar a desintegração da saúde mental
de Nina, devido ao sucesso, a ter realmente substituído a Beth, ou seja, a mãe,
à enorme pressão do diretor, e a chegada de uma concorrente. Tem uma festa onde
ela é apresentada como a nova rainha dos cisnes. A mãe não vai à festa. Ela vai
ao banheiro arrancar a pele do dedo numa cena impressionante onde vemos o
quanto ela precisa se machucar. Talvez se machucar pra se sentir viva, assim
como as pessoas que se cortam.
O Thomas a convida para tomar um drinque em sua casa, ela
encontra Beth no hall da escada e esta a chama de vadia, pergunta o que foi que
ela fez para conseguir o papel, etc. Ela vai realmente até a casa dele e ele
tenta seduzi-la, mas percebe que ela ainda é virgem. Manda que ela vá para casa
e se masturbe. Ela está começando a enfrentar a mãe, a sair com a amiga apesar
da mãe tentar não deixar, vai para uma balada, aceita uma droga (vemos aí que
Lily expressava o mundo da destrutividade interna da própria Nina), dança, se
solta e escuta a mãe a chamar: “Garota doce, garota doce”. Volta para a casa e
a mãe a enche de perguntas: Aonde foi? Tem idéia de que horas são? A mãe é
super invasiva e ela coloca uma espécie de cabo de vassoura na porta querendo
ter sua própria privacidade.
As cenas de masturbação, assim como as cenas de sexo com a
Lily me pareceram uma tentativa dela conhecer o próprio corpo, uma tentativa de
começar a conhecer a sua sexualidade. Aliás, na cena de sexo se prestarmos bem
a atenção vamos ver que ela está transando com ela mesma, o rosto de Lily e o
dela se confundem e aí ela mesma a chama de garota meiga, numa mistura também
com a figura da mãe. Ela entra num estado de desorientação, não sabe mais se
foi fantasia ou realidade. A culpa é tanta, que depois da primeira cena de
masturbação ela alucina que a mãe está ali no quarto. No dia seguinte em que
ela ousou desobedecer à mãe é o dia de um ensaio importante e a mãe não a
acorda. O castigo é imenso! A mãe mostra que na realidade quer que a filha
perca o papel, a mãe invejosa, a mesma mãe que dá o bolo, que fala que as
meninas não têm a magia da Beth, que não vai à festa onde a filha é apresentada
como a Rainha Cisne e que não a acorda no ensaio. Quebra a caixinha de música,
joga fora seus bichos de pelúcia. Parece que está dando “adeus” à garotinha
doce e meiga. Mas tudo isso lhe é imposto de fora para dentro, e ela não
aguenta. Lily quer ser sua substituta, mas ela com medo de ser realmente
substituída, começa a ensaiar desesperadamente, e começa a alucinar. Ouve
gargalhadas quando as luzes se apagam, vê ou alucina o Thomas, o professor, o
pai, transando com a Lily, ou com a rival , com a mãe, numa nítida cena
primária onde se sente totalmente excluída e aí vai piorando. O clima vai
ficando cada vez mais enlouquecido.
Tem uma cena onde se masturba na banheira e de repente vê
umas gotas de sangue pingando, e vê um rosto que também é seu próprio
rosto. O seu Eu destrutivo, a
tinha machucado outra vez. Vai pedir desculpas à Beth, devolve as coisas
que havia roubado e vê Beth se matar, com a lixa que ela havia devolvido.
Triunfar sobre Beth, a aposentada Rainha-mãe, é sentido como um triunfo sobre a
mãe. Vai devolver os objetos que havia roubado de Beth, para mostrar que ela
imaginava não apenas estar roubando o lugar de Beth, mas também estava roubando
o sonho da mãe. Ela está matando a mãe. Aí o conflito piora, começa a se
arranhar cada vez mais, vê penas saindo de suas costas, vê seus pés tornando-se
pés de cisne. Tem a cena
das pernas se quebrando, significando um esfacelamento de ego.
A mãe atrás dela, quer saber se o professor está se
aproveitando dela, e aí diz: “Só quero que você não cometa o mesmo erro que eu.
Eu tinha 28 anos, estava no auge da carreira e tive que desistir para ter
você”. Começa então a delirar, e briga com a Lily no banheiro, quebra o espelho
e na sua alucinação pensa que matou a sua rival. Se prestarmos bem a atenção
nesta cena, vemos novamente que é ela mesma, o rosto é o da Nina numa luta de
morte entre o cisne negro e o cisne branco. Aí, depois de matar o cisne
branco, ela dança o cisne negro como nunca havia dançado. Foi maravilhoso, ela
encarna tanto o papel que chega a alucinar que está criando penas. Beija o
Thomas com sensualidade.
No final ainda diz que sentiu a perfeição – “foi perfeito”.
E Morre! Precisou morrer porque
estava interditada de mostrar seu cisne negro. Ou seja, para não matar a mãe,
matou a si própria.
ANÁLISE DO CASO.
“ O esquizofrênico é louco aos nossos olhos, porque aos seus, sua vinda a este mundo não
tem sentido assuntível” .
- Perrier ¹
Muitos são os teóricos e autores que buscam pela gênese da
Psicose, alguns aproximam-se com eficácia usando suas teorias para elucidar
melhor como se elabora esse fenômeno da Psique humana, incluindo o grande
explanador da Psicanálise Sigmund Freud, Carl Gustav Jung, J. Lacan, entre
outros. Mas o que considera-se é que a Psicose desdobra-se em segredos tão
soterrados na humanidade, que não há total certeza sobre muitas coisas
remetentes à ela.
A Personagem da obra; Nina, caracteriza-se exatamente como
uma pessoa que possui uma psicopatologia de cunho psicótico, enquadrando-se
possivelmente no F20.0 (Esquizofrenia Paranóide); segundo a Classificação de
Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 (1993, pág. 88). Para uma
melhor acepção sobre o que seria a Psicose, segue-se alguns comentários de
autores inter-relacionados ao campo de estudo sobre os Transtornos e Estrutura
Psicótica.
Segundo Dalgalarrondo, “as síndromes psicóticas
caracterizam-se por sintomas típicos como alucinações, delírios, pensamento
desorganizado e comportamento claramente bizarro”. (2008. pág.327 – cap:30). A
psicose mais comum, por ter uma grande frequência nas clínicas é certamente a
Esquizofrenia. Kurt Schneider elencou alguns sintomas de primeira ordem, para
uma melhor identificação do transtorno como; percepção delirante, alucinações auditivas ou vozes de comando, eco do
pensamento, roubo do pensamento, vivencias de influência na esfera corporal
ou ideativa.
No que concerne ao CID-10 (1993, pág. 88), os sintomas mais
comuns da Esquizofrenia Paranóide são:
(a)
Delírios de perseguição, referência, ascendência
importante, missão especial, mudanças corporais ou ciúmes;
(b)
Vozes alucinatórias que ameaçam o paciente ou
lhe dão ordens ou alucinações visuais sem conteúdo verbal, tais como assobios,
zunidos ou risos;
(c)
Alucinações olfativas ou gustativas, de
sensações sexuais ou outras corporais; alucinações visuais podem ocorrer, porém
raramente são predominantes.
Diante de uma perspectiva Psicanalítica, observamos intensos
conceitos sendo amplamente trabalhados no transcorrer da obra, inclusive, o
próprio diretor Darren Aronofsky; durante entrevista concedida ao canal
televisivo norte-americano BBC, esclareceu que todo o longa-metragem foi
embasado e dirigido por sob uma ótica Psicanalítica clássica. Há conceitos
utilizados por Freud como; Narcisismo Secundário, Transferência Projetiva e
Castração Materna.
Agregando conjuntamente a Freud; Jacques Lacan, nos
transfere conceitos como Função Espelho, “Doppelganger”
ou O Duplo, Nome-do-pai e Função Materna. Numa abordagem Analítica Junguiana;
de Carl Gustav Jung, encontramos conceitos inteiramente concomitantes com as
nuances de sintomas do filme, pois, encontra-se conceitos como a Sombra (Lado
sombrio), Persona (Máscara), Arquétipo Anima (Energia Feminina - Criativa),
Arquétipo Animus ( Energia Masculina - Destrutiva), Inconsciente coletivo e
Self ( Individuação).
Seccionaremos cada um desses conceitos, aliando-os ás cenas
expostas da obra, conforme a sintomatologia dos personagens. Um personagem
crucial para o entendimento da dinâmica psíquica de Nina é sua própria mãe
Érika, observamos que a progenitora possui um laço simbiótico destrutivo para
com a filha, ela deveria servir de apoia à maternidade e a identidade de ser
desejante, que segundo Freud, seriam os dois destinos possíveis da mulher
(FREUD, 1933-1932). A gravidez dela não tinha um valor sublimatório de desejo,
ao interromper sua carreira profissional pela gestação, amargurou-se e então
passou a projetar na filha, suas expectativas profissionais. Segundo Freud em Sobre o Narcisismo (Freud, 1914), cita a
imortalidade do Ego, sendo reprimida pela realidade que renasce ao projetar-se
nos filhos, destinados a tirar os pais das próprias frustrações passadas.
Sendo assim, ela lamenta a morte do seu próprio desejo e o faz renascer
para ser realizado através da filha.
A Projeção é um mecanismo de defesa do Ego, onde um evento
doloroso nos impede de desfrutar do gozo libidinal; tende-se a projetar em um
objeto externo, afim de realizar o gozo por meio desse objeto ou direcionar a
culpa ao mesmo. É evidente o quanto Érika projeto em Nina seus anseios
frustrados e como desloca a culpa, ódio e rancor para sua progênita.
Constata-se traços narcísicos em Érika, visto que em uma das cenas em que Nina,
chega em casa e busca por sua mãe nos cômodos da casa, para falar-lhe sobre a
escalação do papel de Rainha Cisne, a câmera nos dá um enfoque em alguns
quadros de autorretrato de sua mãe, com olhos grandes e persecutórios para com
Nina, diante disso caracterizamos pontos de Narcisismo Secundário, onde o gozo
é vivido através da importância social do ballet e como a mãe, foi quem
disponibilizou todo esse suposto status de bailarina perfeita para a filha, há
evidencias de Narcisismo também, em um dos momentos em que ela diz a Nina que
lembra quando tudo começou, lembra que era ela quem levava a filha a cada uma
daquelas aulas, ou então ela ficaria completamente perdida, etc. Ou seja, ela
devia todo aquele sucesso ao sacrifício da mãe, nota-se o grau de responsabilidade
que Érika projeta em Nina, para que a mesma sempre seja grata por ela chegar
onde chegou, por conseguir ser a Rainha Cisne, tirando toda o mérito de Nina.
Érika mantinha uma constante castração materna diante de sua
filha, alienando-a a figura do objeto da necessidade, e jamais de objeto de desejo,
onde Nina unificou sua imagem a da mãe, em um transporte narcísico da
realização de desejo da mãe, não constituindo-se enquanto sujeito, mas ainda
num processo primário de extensão do seio materno; numa simbiose total com a
mãe, que alimentava essa necessidade de assexualização de Nina, impedindo-a de
redigir sua erogenização e alienação no desejo materno, a falta da figura
paterna beneficiou para que a alienação se estabelece-se no objeto de
necessidade primária. Aqui consequentemente o seio materno adotou a alienação,
estando Nina entre uma linearidade entre amor e ódio de objeto materno, onde
não houve uma estruturação de um ego próprio, mas a adoção do Ego da própria
Mãe.
J. Lacan, nos elucida quanto a Função espelho que observamos
com Nina e sua mãe, esteve extremamente fragmentado, com toda a pressão
exercida pelo Superego da mãe e o controle exorbitante a todo momento, Nina não
conseguia visualizar como unidade os aspectos femininos e maternos que a mãe
deveria espelhar, mas apenas um olhar persecutório diante dela, dessa forma não
teve em quem se espelhar enquanto objeto de desejo, não há um falo para ser
desejado, consequentemente, não há uma narcisação do sujeito, Nina não
constituiu-se enquanto sujeito, por isso, ela rouba o batom de Beth, pois
visualiza na mulher uma figura feminina mais velha e com aspectos femininos bem
delineados, projeta em lily o segundo espelhamento, uma sexualidade que lhe foi
reprimida constantemente, mas em todos esses momentos, o espelhamento foi
degradado, desmembrado e nunca por inteiro, sempre havendo falhas na
constituição de Nina como um sujeito por inteiro, dessa forma, ela sempre se
veria ligada ao corpo da mãe, como uma só. Atacar a mãe, seria se atacar,
deixar-se descobrir a sexualidade seria roubar o lugar da mãe enquanto
proprietária de função materna, conhecendo apenas a imposição, se Érika, não
tivesse projetado tantas expectativas em Nina ou mesmo, tivesse apresentado a
narcisação primária, com afeto e prazer, Nina talvez conseguiria estabelecer o
objeto de desejo e não a alienação no objeto materno. Diante disso, Nina
estabeleceu um Transtorno Alimentar, a Anorexia. Segundo Ana Maria Rudge e
Betty Fuks (2013), “Está presente na Anorexia, um Superego extremamente feroz
que incita à obediência, e cujos mandatos de autodestruição, muitas vezes,
levam efetivamente a morte, a Anorexia tem como função estabelecer um corte ou
um furo no Outro...”. Nota-se aqui que Nina, estava tentando estabelecer o
corte com Objeto Materno que possibilitasse a realização do desejo, numa
tentativa de constituir-se como sujeito pleno de sua vida, mas a pulsão de
morte presente no ID de Nina conjunto com sua libido crescente, foi
extremamente destrutiva para o Ego frágil dela, acarretando num surto
psicótico.
Observa-se o conceito O Duplo de J. Lacan, onde Nina logo no
momento inicial do filme, durante seu sonho, desdobra-se em inúmeras partes
espelhadas, com sombreamento e luzes que emergem de suas costas, enquanto
dança. Depois ao acordar, resolve se alongar na sala, de frente para o espelho,
enquanto monologa sobre seu sonho, a câmera incide na imagem da mesma subdivida
em duas, enquadrando-se na imagem de sua própria mãe, nos indicando que o outro
de Nina, seria sua mãe, numa dissociação narcísica do estádio do espelho, não
obtendo um reconhecimento de seu próprio corpo enquanto sujeito. Outra cena bem
característica onde nota-se o fenômeno O Duplo é a cena em que Lily reflete-se
de costas no reflexo de Nina no metrô, logo depois no espelho do camarim e
depois na cena em que masturba-se em casa, num delírio sexual com Lily, mas
neste pequeno ponto é que nota-se que Lily é seu Duplo, seu Outro, no qual Nina
projeta-se como forma de reconhecimento, tentando constituir-se enquanto
sujeito, mas, a dissociação de sua própria imagem, é desmembrada, estilhaçada
como no espelho quebrado em pedaços no camarim.
J. Lacan, explana muito bem como a função paterna,
especificamente o conceito Nome-do-pai, é percursor de uma estruturação
adequada para a personalidade com a resolução do conflito Edipiano. Observa-se
que, o diretor Thomas exerceu esse papel diante de Nina, como sua figura
paterna, antes inexistente em sua vida, deixando-lhe a sensação de vazio e
sucção, representando uma ferida no corpo materno. O Complexo de Édipo faz
do pai o agente da proibição que o torna impossível acessar o
objeto-causa-de-desejo, na análise estrutural de Lacan mostra que o pai não é
quem garante a lei simbólica, mas é o único que autoriza desejo. “A verdadeira
função do Pai… É, fundamentalmente, unir (e não se opor) um desejo à Lei”,
escreveu ele em “Subversão do sujeito e dialética do desejo” (Lacan, p.
309).
Dessa forma, Thomas surge como a simbolização da liberação
do gozo reprimido por anos, do Édipo que não foi constituído estruturalmente,
quando ele a instiga beijando-a algumas pulsões oriundas do ID acabam surgindo
e fazendo-a entrar em conflito com o Superego da mãe, fazendo-a sentir-se
confusa, por estar querendo tomar o lugar da mãe como única capaz de ter
sexualidade e feminilidade. Em uma cena, ela até mesmo pega uma barra de ferro
e tenta colocar contra a porta, como forma de libertar-se da contante vigia da
mãe, tentando de uma forma tardia elaborar, a simbolização do Nome-do-pai que o
diretor despertou nela. Quando ele pede para que ela se masturbe, está
liberando o desejo dela, por isto, nessa cena, ela acaba vendo a imagem da mãe,
como o Outro, já que são uma só, ela não poderia se tocar, sem tocar a mãe em
cossonância. Como seu Ego é frágil ou inexistência de seu próprio Ego, e todos
esse conflitos acabam desestabilizando cada vez mais a frágil estrutura de sua
personalidade, desencadeando então em alucinações e delírios, pois seu ego
inexistente não consegue mais filtrar as pulsões vindas de seu ID desperto, que
reprimiu-se durante anos e a pressão e olhar persecutório do Superego de sua
mãe, cobrando-a para regredir ao seu estado assexuado e infantil.
Numa perspectiva Analítica Junguiana, Nina claramente adota
a Persona de filha perfeita e de bailarina excepcional; Persona é o conceito
pela qual o Sujeito adota Máscaras sociais e papéis que lhe designam, para que
consiga lidar com sua psicodinâmica de forma adequada sem prejuízos a si e aos
outros. Nota-se esse aspecto sendo utilizado, quando Lily apresenta alguns
amigos dela a Nina, na balada e eles perguntam “Quem é você?”, no que ela responde “Sou uma bailarina”, Nina introjetou em si de tal modo essa Máscara
de bailarina perfeita, que sua mãe acabou projetando nela que não conseguia
visualizar-se enquanto sujeito próprio, com suas próprias características e
aspectos.
Um fator a ser salientado, é o Arquétipo Anima presente na
fase inicial do filme, onde Nina representa toda a pureza, feminilidade, pudor
e delicadeza, quase que infantil, o que o próprio diretor disse caracterizá-la
exatamente como o Cisne Branco, mas quanto ao aspecto mais sensual, sombrio e
destrutivo que Thomas queria que ela deixasse fluir, só veio surgir quando
Nina, estava sob os delírios e alucinações, quando o Arquétipo Animus
extravasava-se em uma onda de criatividade, sensualidade e destrutividade que
Nina não conseguiu equilibrar, por não ter um Ego totalmente formado, estável e
maduro, se ela possuísse um Ego equilibrado, conseguiria utilizar a força,
sensualidade e criatividade bruta do Animus, com a delicadeza e pureza feminina
e mais dócil do Anima, com excelência, representando bem os dois papéis e
saindo ilesa da destruição presente no Animus.
O conceito do Arquétipo Sombra de Jung, esteve presente
durante todo o transcorrer do longa, onde desde o início da trama, durante seu
sonho, observamos características da expressão de seu lado sombrio emergindo ao
poucos, durante a cena da caminhada que ela faz e cruza com sua versão mais
sensual e sombria no túnel, durante todas as cenas em que olha-se no espelho e
começa ver-se como o Cisne Negro, durante as vezes em que Projeta todo seu
conteúdo sombrio, reprimido e que a envergonharia em Lily, projetando nela a
sensualidade reprimida pela mãe, seu ódio materno, sua vontade de ter escolha
própria, projeta também sua paranoia nos outros, como forma de auto julgamento,
Nina busca pelo alcance da perfeição, como sendo seu processo de Individuação,
seu Self, no qual só consegue alcançar durante sua morte, quando olha nos olhos
da mãe, depois de ter executado com maestria dos dois papéis, utilizando as
energias do Anima e Animus conjuntamente, integrando-se totalmente em um único
ser, alcançando o estado de individuação ou de elaboração total de seu Self.
No que concerne a toda a sintomatologia presente de Nina na
obra, podemos observar um grande traço persecutório instalado em sua Psique,
oriunda de má estruturação e da alienação no objeto materno, há cenas em que os
delírios são evidentes, como quando ela olha-se no espelho e observa penas
crescendo de suas costas, seus olhos ficando vermelhos, em uma alucinação
visual, o roubo de pensamentos, quando acha que sua mãe estava escutando o que
a mesma estava pensando.
Outro sintoma bem definido de que ela acabou por desenvolver
uma Esquizofrenia, foi justamente pelo autoa-gressividade presente nos momentos
em que acabava por se arranhar, arrancar pedaços de cutículas das unhas, como
forma de expulsão dos delírios. Nina, enquadra-se no transtorno por ter esses
delírios persecutórios; como quando ela olha para os colegas durante a dança e
acha que os mesmo estão julgando-a, por ter laços sociais debilitados, em todas
as esferas de sua vida, como os problemas relacionais com a mãe, com seus
colegas de trabalho e em outros que não foram visualizados no filme e seus
delírios de ruína, quando acha que não é boa o suficiente para exercer os
papéis, todas essas características presentes possibilitam um diagnóstico
concreto sobre Nina ter desenvolvido Esquizofrenia Paranóide.
CONCLUSÃO.
Diante de todos os expostos acima, podemos observar como
toda a Psicodinâmica de Nina Sayers estava totalmente debilitada diante, de
vário sintomas presentes na Esquizofrenia, seu histórico familiar é de extremos
abusos emocionais oriundos de uma má relação maternal, onde os papéis paternos,
não foram bem desempenhados, acarretando em grandes entraves para o
desenvolvimento de uma personalidade adequada, o filme presente, foi
grandemente esclarecedor, quanto a uma ótica Psicanalítica sobre a possível
origem de um quadro Psicótico tão complexo quanto a Esquizofrenia, nota-se como
o filme foi totalmente plausível ao direcionar todo o olhar, por sob como a
própria Nina via sua vida, fazendo-nos compreender como os delírios e
alucinações são tão aterrorizantes para quem presencia tal atividade psíquica e
como os laços familiares são tão responsáveis por uma boa formação da estrutura
psíquica dos indivíduos, durante a primeira vez em que assiste-se a obra, não é
possível compreender de uma totalidade os fenômenos expostos, mas, ao ler os
conceitos e teorias, comparando-as a todas as cenas, podemos ver como, a
Psicose ainda é inteiramente singular, levantando tantas perguntas a serem
respondidas, fazendo-nos pensar em quantas coisas, poderiam ter sido evitadas,
para que o fim trágico não tivesse sido consumado diante de toda a vida de
sofrimento de Nina. Um filme totalmente angustiante, promissor e esclarecedor,
muito ainda faltou a ser abordado para opinar sobre o filme, tantos conceitos
que podem ser aplicados, mas que estenderia por demais essa análise.
No mais, conclui-se que o filme foi de extrema importância
para uma boa visualização sobre essa dinâmica psíquica de uma pessoa
Esquizofrenica.
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