terça-feira, 11 de maio de 2021

Relato de Experiência de estágio - Comunidade Terapêutica.

 

A PERCEPÇAO DOS ESTAGIÁRIOS NA TRIAGEM E ATENDIMENTO PSICOLÓGICO DENTRO DA COMUNIDADE TERAPÊUTICA COMUNIDADE FAMÍLIA ROSETTA EM PORTO VELHO-RO

Anderson de Oliveira Pereira¹

Ana Paula de Almeida ²

 

 

RESUMO

Refere-se a abordagem de um relato de experiência descritivo e bibliográfico cuja finalidade é compreender a percepção dos estagiários que estiveram exercendo funções de atendimento de triagem psicológica e atendimento psicoterápico de orientação breve, visando identificar fatores experienciais relevantes para uma constituição de prática profissional, além de esclarecer sensações presentes nos atendimentos, como medo, angústia e ansiedade. Evidenciar como funciona o tratamento com indivíduos que estão em uma unidade de internação e como os pacientes sintetizam esse tratamento por meio dos atendimentos, também de transformar os estigmas presentes, no tratamento oferecido em comunidades terapêuticas que estão cerceadas em um ideal religioso em um fundo que atravessa esses indivíduos internados que visam um tratamento e como a Psicologia, torna-se uma prática efetiva para essas comunidades.

 

Palavras-chave: Estagiários, Comunidades terapêuticas; Atendimento Psicoterápico.

 

 

INTRODUÇÃO

“ Tudo que é amado, cresce”
-  Padre Vincenzzo, Casa família Rosetta.

 

A Comunidade Terapêutica Associação Casa Familia Rosetta, fundada em 1992 pelo padre Vicenzzo, percursor e coordenador mestre, onde inúmeros serviços são ofertados pela instituição, como o programa terapêutico, que visa prevenir, tratar, recuperar e reinserir os indivíduos em situação de risco e aqueles que possuem dependências químicas na sociedade de forma digna e integral.

As comunidades terapêuticas, segundo Laura Fracasso (2017): São serviços, urbanos ou rurais, de atenção a pessoas com transtornos decorrentes do uso ou abuso de substâncias psicoativas (SPA), em regime de residência ou outros vínculos de um ou dois turnos, segundo o modelo psicossocial; são unidades que têm por função a oferta de um ambiente protegido, técnica e eticamente orientado, que forneça suporte e tratamento aos usuários abusivos e/ou dependentes de substâncias psicoativas, durante período estabelecido de acordo com programa terapêutico adaptado às necessidades de cada caso. É um lugar cujo principal instrumento terapêutico é a convivência entre os pares. Oferece uma rede de ajuda no processo de recuperação das pessoas, resgatando a cidadania, buscando encontrar novas possibilidades de reabilitação física e psicológica e de reinserção social (ANVISA, 2001).

 

Diante disso, para um embasamento teórico necessário aos atendimentos, utilizou-se a abordagem psicanalítica como norteadora da escolha das técnicas a serem executadas nos atendimentos. Autores como, Guerra & Vandenberghe (2017) introduzem o estado da arte referente a dependência química no Brasil; Figlie & Guimarães (2014), que dialogam sobre a importância extrema da entrevista motivacional, no que tange o tratamento com dependentes químicos, tanto nas comunidades terapêuticas, quanto nos CAPS (Centro de Assistência Psicossocial).

Cabe salientar os contributos de Schimith; Murta & Queiroz (2019), com estudos recentes sobre a abordagem dos termos de dependência química, toxicomania e drogadição no campo da psicologia brasileira. Barros; Dantas & Silva (2018), enfocam a importância da psicoterapia em grupo, sob uma perspectiva psicanalítica no avanço do tratamento e benefícios que propiciam a expressão dos sentimentos e pertencimento social que apenas as vivências em grupo proporcionam.

 

METODOLOGIA

 

Partindo do princípio de uma análise descritiva e bibliográfica foi realizado algumas atividades de campo na comunidade Associação Casa Família Rosetta, que presta atendimento intensivo a comunidade local e integral de Porto Velho, composto por uma unidade de atendimento psicológico, com salas de atendimento individual, visando o acolhimento de pacientes que necessitam de atenção e cuidados por uma equipe multiprofissional, de maneira que a prática atrelada ao campo de atuação é triagem psicológica e atendimento psicoterápico. Como prática da atuação psicológica foi utilizada entrevistas semiestruturadas, visando a busca por uma história pregressa do indivíduo que buscava por atendimento na instituição, escuta terapêutica, por meio de psicoterapia breve, entrevistas motivacionais, aconselhamento, acolhimento a internados, familiares, profissionais da instituição e outras demandas da comunidade, como crianças e adolescentes, encaminhados ou por demanda espontânea.

 

DISCUSSÃO E RESULTADOS

 

Aconselhamento Psicológico

 

Segundo Trindade & Teixeira (2000), o aconselhamento psicológico surge como uma relação de ajuda que visa facilitar a adaptação de forma mais satisfatória do sujeito à situação em que se encontra, otimizando os seus recursos pessoais em termos de autoconhecimento, autoajuda e autonomia. Dessa forma, o principal objetivo é promover o bem-estar psicológico e a autonomia pessoal no confronto com as dificuldades e os problemas, como uma forma de psicoeducação para o sujeito.

Contrariando o senso comum, Teixeira & Trindade (2000, apud, Rowland, 1992), aconselhar não é apenas dar conselhos como faria a um amigo, fazer exortações ou mesmo encorajar disciplina e prescrever condutas que deveriam ser seguidas, de acordo com o próprio senso moral e ético. Pelo contrário, trata-se de ajudar o sujeito a compreender-se a si próprio e à situação em que se encontra e ajudá-lo a melhorar a sua capacidade na tomada de decisões que lhe sejam benéficas.

Ainda segundo, Teixeira & Trindade (2000, apud, Bond, 1995), O aconselhamento psicológico é diferente de psicoterapia, pois as diferenças referem-se a aspectos específicos, tais como: o caráter situacional; foco intenso na resolução de problemas do sujeito; localização no presente (aqui e agora); duração mais curta (em torno de semanas a no máximo 6 meses); mais orientado para a ação do que para a reflexão (mesmo sendo de suma importância a autorreflexão); predominantemente mais centrado na prevenção do que no tratamento e a tarefa essencial do psicólogo é a de facilitar a mudança de comportamento e ajudar a mantê-la.

Alguns autores abordam que, a Psicanálise acaba sendo ineficaz na utilização do aconselhamento, pois, demandaria de um tempo específico para que as técnicas necessárias dessa abordagem fizessem efeitos no sujeito a ser aconselhado, onde a indicação para casos de atuação em contextos de áreas da saúde como um CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial) por exemplo, abordagens como a Terapia Cognitiva-Comportamental é mais indicada. Contudo, segundo Teixeira & Trindade (2000, apud, Davy, 1999), Seja qual for o modelo teórico, há vantagem em integrá-lo numa abordagem holística da saúde que inclua a consideração simultânea do estado de saúde, do bem-estar psicológico, das competências sociais e da qualidade de vida. Isto é, o aconselhamento deve enquadrar-se numa abordagem biopsicossocial que promova a combinação da intervenção psicológica especializada sobre a experiência de saúde ou de doença com a intervenção médica, tendo em conta que a experiência da doença relaciona-se com a intersecção entre os processos de doença, o ciclo de vida e o desenvolvimento, dentro dum contexto sociocultural.

 

Entrevista Motivacional

 

Segundo Guimarães e Figlie (2014, apud, Miller & Rollnick, 2013), a entrevista motivacional é um estilo de conversa colaborativa voltado para o fortalecimento da sua própria motivação e comprometimento com uma mudança. Por se tratar de uma abordagem que tem uma meta específica, que é resolver a ambivalência, é compreendida com caráter de intervenção breve, podendo assim, ser utilizada por uma ampla gama de profissionais em diferentes serviços.

Assim, para que a aprendizagem da EM ocorra, é preciso que o profissional tenha como alvo passar por oito estágios, sendo eles: Trabalhar em parceria com o cliente, baseando no reconhecimento de que é o especialista em sua própria vida; Habilidade em oferecer um aconselhamento centrado no cliente, incluindo empatia precisa; reconhecer os aspectos chave das falas do cliente norteadoras para a prática da EM; Eliciar e fortalecer as falas de mudança do cliente; Lidar com a resistência; Negociar um plano de ação; Consolidar o compromisso do cliente com a mudança; Ser flexível no uso da EM juntamente com outros estilos de intervenção (Figlie; et al. 2015).

 

Dependência Química: Estado da Arte

 

Segundo Guerra & Vandenberghe (2017), O uso abusivo de substâncias psicoativas é um problema de saúde pública que afeta todas as dimensões da vida de seus usuários, o que vem contribuindo drasticamente para o aumento de inúmeros problemas encontrados não só em quem usa as drogas e/ou depende delas, como também nos contextos sociais em que estão inseridos: comportamento violento; menor capacidade de julgamento; dificuldades profissionais; abandono dos estudos; rompimento de vínculos, inclusive familiares; problemas psiquiátricos, entre outros (Assis, 2011; Ribeiro, Nappo & Sanchez, 2012).

O prazer associado à droga é intenso e muitas vezes imediato, o que facilita a compulsão pelo uso/abuso de drogas de forma desenfreada e as alterações fisiológicas do cérebro, anormalidades comportamentais e dificuldades sociais. Diante da complexidade de sua natureza, o uso abusivo de substâncias psicoativas é considerado por alguns estudiosos como uma doença crônica, necessitando de abordagens de tratamento que integram todas as áreas afetadas, assim diz Guerra & Vandemberghe, (2017, apud, Bordin, Grandi, Figlie & Laranjeira, 2010; Laranjeira, 2012).

Ainda segundo Guerra & Vandemberghe (2017), levando em consideração o elevado custo social e o sofrimento subjetivo do problema, o presente estudo objetivou conhecer a literatura nacional acerca da reabilitação do dependente químico. Diante disso, concluiu que, Pesquisadores brasileiros têm se dedicado ao estudo de programas e estratégias de tratamento do uso abusivo de substâncias psicoativas que sejam eficazes na superação desse problema de saúde pública.

Diferentes estratégias de tratamento têm sido alvo desses estudos, por contemplar a integralidade do sujeito, isto é, uma abordagem biopsicossocial e espiritual. Entretanto, ainda há clínicas psiquiátricas, Comunidades Terapêuticas e internações compulsórias como opções de tratamento, mesmo que isso signifique, muitas vezes, permanecer na segregação social e impossibilitar a liberdade de decisão do sujeito, o que diminui a promoção de sua autonomia.

O acolhimento da subjetividade do sujeito, o respeito por suas decisões e escolhas, e cuidados direcionados também aos seus familiares parecem ser aspectos de grande relevância e influência na eficácia dos diversos programas e estratégias de tratamento no combate ao uso abusivo de substâncias psicoativas.

 

Psicoterapia de Grupos

 

Segundo Barros; Dantas & Silva (2018), durante um estágio numa ONG, que visava o atendimento com Psicoterapia em Grupos com a abordagem psicanalítica, percebeu-se que a Psicoterapia de Grupo mostra-se como uma excelente ferramenta terapêutica para o restabelecimento da saúde mental das pessoas em situação de uso abusivo de álcool e drogas, sendo funcional, prática, dialógica e acessível a todos.

Aplicável, não faculta grandes gastos e pode atender a um número maior de pacientes em cada sessão. Permite aos profissionais a observação, aprendizagem e a possibilidade de obter uma experiência ímpar ao se colocar à disposição para ouvir as polifonias advindas das diversidades que se encontram na subjetividade do ser humano.

Ainda de acordo com Barros; Dantas & Silva (2018), a Psicoterapia de Grupo é uma ferramenta totalmente eficaz para o tratamento e melhora das pessoas em situação de adição, sendo plenamente indicada para grupos homogêneos ou heterogêneos, abertos ou fechados, com data de finalização ou não; sem a falsa pretensão, de que todos permanecerão em abstinência ou mesmo em redução de uso; sabemos que o índice de reincidência é alto, mas é óbvio que é extremamente oportuna e eficaz esta aplicação terapêutica, sendo um excelente suporte em CT’S (Comunidades Terapêuticas), Casas-lares, ou qualquer instituição que atenda pessoas em situação de drogadição.

O importante é que seja estabelecido dentro do processo de tratamento, um plano terapêutico com coordenação, compromisso entre os profissionais, aliança terapêutica, sigilo, onde haja coesão, métodos, técnicas, um manejo clínico eficaz e o vínculo terapêutico estabelecido, a empatia, a esperança e acima de tudo o amor pelo que se faz

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Diante de todo o percurso vivenciado na Comunidade Terapêutica, Associação Casa Familia Rosetta, percebemos que a instituição surge como um arauto de esperança para a comunidade tão carente na cidade de Porto Velho, pois oferece inúmeros benefícios em geral. O acolhimento foi genuíno e de suma importância para uma melhor adaptação, o estágio em si foi enriquecedor, visto que nos foi oportunizado a prática de atendimentos, os quais sem o auxílio dos artigos que nos serviram como base, bem como todo os transcurso no decorrer da graduação e acúmulos de conhecimentos, não teríamos executado um trabalho psicoterápico agradável aos que buscaram atendimento na unidade de internação.

Sabe-se que as comunidades terapêuticas são extremamente criticadas no que tange as suas práticas de reinserção social, visto que baseiam-se em uma prática religiosa, mas, tem seu posicionamento político e social, pois transforma vidas de forma digna e saudável, as técnicas motivacionais intercalaram-se tanto nos atendimentos quanto no que foi perpassado pelos matérias de orientação.

A prática neste estágio, proporcionou outro olhar para a Psicologia Social, seu papel e como os profissionais de Psicologia, carecem de serem inseridos nestas instituições que estão sedentas por profissionais que possam contribuir com seus saberes e práticas. Voluntariados foram programados a serem executados, fora da prática de estágio necessária da grade curricular.

Portanto, este estágio foi exemplar na vivência desta instituição.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BARROS, Martha Luciene Nogueira Dantas; DANTAS, Jeiel Silva; SILVA, Gessé de Souza. A Psicoterapia de Grupo no Atendimento a Dependentes Químicos – Relato de Experiência em um Projeto Social. Revista Ciência, Bahia. 2018.

 

FIGLIE, Neliana Buzi; GUIMARÃES, Lívia Pires. A Entrevista Motivacional: Conversas sobre mudanças. Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo. 2014.

 

TRINDADE, Isabel; TEIXEIRA, José. A. Carvalho. Aconselhamento Psicológico em Contextos de Saúde e Doença – Intervenção Privilegiada em Psicologia da Saúde. Análise Psicológica. 2000.

 

GUERRA, Marcella Regina Silva Rieiro; VANDEMBERGHE, Luc. Abordagem do Comportamento do uso abusivo de substâncias psicoativas no Brasil: o estado da arte. Pesquisas e Práticas Psicossociais, São João del Rei. 2017

 


Análise do filme: "Cisne Negro".

 ANÁLISE PSICOPATOLÓGICA REFERENTE AO FILME CISNE NEGRO

Anderson de Oliveira Pereira

SINOPSE

Para que ocorra uma boa compreensão sobre o filme, faz-se necessário adentrar no resumo do filme. Cisne Negro, é um filme do diretor Darren Aranofsky, 2011.Sendo altamente premiado, inclusive, Natalie Portman, que interpretou Nina, a protagonista do filme, recebey o oscar por melhor atuação de atriz. 

Nina Sayers é bailarina de uma companhia nova-iorquina de ballet. Sua vida é inteiramente dedicada à dança. Mora com a mãe. O diretor artístico da companhia (Thomas) decide substituir a bailarina principal, Beth, na apresentação de abertura da temporada.  Nina é sua primeira escolha, mas surge uma concorrente, a nova bailarina Lily, que deixa Thomas impressionado. O Lago dos Cisnes requer uma bailarina que seja capaz de interpretar tanto o cisne branco com inocência e graça, quanto o Cisne Negro que requer malícia e sensualidade. Nina se encaixa perfeitamente no papel de cisne branco, porém Lily é a personificação do Cisne Negro. As duas desenvolvem uma amizade conflituosa, repleta de rivalidade, competição, ciúme, e Nina é forçada a entrar em contato com seu lado mais sombrio.

Cisne Negro faz uma viagem emocionante e aterrorizante à mente de uma jovem bailarina. A bailarina é movida pelo desejo de superação, por tornar-se a primeira bailarina. Interpretar Odette não é problema, uma vez que ela partilha com a personagem suas qualidades metódicas e virginais, é pura, ingênua e inocente. O desafio é a interpretação de Odile, o Cisne Negro, a encarnação da sensualidade e sedução. Nina é uma garota amargurada, seriamente perturbada, obcecada pela perfeição. O filme começa sob um foco de luz que parece desesperado em focar a face da bailarina, mas sem conseguir iluminar a angústia dos seus olhos e a dor de sua face.   Essa bailarina que se vê obrigada a partir nessa viagem angustiante em que tem que deixar um lado seu, que até aquele momento ela própria desconhecia, tomar conta de si. Seu reflexo negro (como o cisne que precisa interpretar).

O espectador acompanha a dor das suas articulações estalando ao acordar, a preparação dolorida das sapatilhas cheias de rasgos e dobras, dos diversos machucados, do suor, da disputa entre as bailarinas, da disciplina e do peso por trás daqueles movimentos que enchem o palco de beleza. Porém o filme é muito mais sobre esse impulso violento e destrutivo que carrega a protagonista em direção a essa nova pessoa que ela não desconfiava ser, mesmo que isso lhe custe a sanidade. No pesadelo do início, ela é tomada pela figura amedrontadora do feiticeiro.  Ela acorda assustada. Conta para a mãe que teve um sonho louco, que estava dançando o cisne branco, mas era uma coreografia diferente, mais parecida com a do Bolshoi – o prólogo, quando Rothbart coloca o feitiço nela. Em seguida aparece seu quarto. Um quarto de menina, todo rosa, cheio de bichinhos. Menina – Nina que não teve chance de crescer.

Vive dominada por uma mãe controladora, intrusiva e invejosa, que teve uma gravidez indesejada aos 28 anos, no auge da carreira e isto a deixou frustrada e amarga. Ou seja, Nina para nascer, matou o sonho da mãe de ser a Rainha-CisneA mãe então quer fazer da filha o que não pode ser. Superprotege, mas é uma superproteção que disfarça uma rejeição e não dá à filha o direito de ter sua própria individualidade, de crescer, tornar-se mulher, assumir a sua sensualidade. Todo o seu lado impulsivo, agressivo, que todos nós temos, e que precisamos ter para crescer, é totalmente negado e cindido.  Todo esse lado está interditado, como um feitiço.  Ela não consegue integrar. Não consegue integrar porque ainda encontra-se fundida na mãe, numa simbiose doentia, numa corrente de amor e ódio. Nina que pretende a independência, mas a culpa pelos ataques fantasiados e reais à mãe, não o permitem.  Assim como Odette, enclausurada num corpo de cisne, Nina tem seus desejos interditados, enclausurados num cárcere psíquico, assim como as pacientes anoréxicas e bulímicas, onde o caminho pulsional está interditado geralmente por conflitos importantes com as figuras materna e paterna.

No filme, chama à atenção a ausência total e completa do pai. Mas Thomas, o professor preenche a figura paterna. O professor que a seduz, ela quer ter uma relação sexual com ele para poder se sentir viva e se realizar, mas ao fazer isto sente que está tendo relações com o pai e; portanto, estará ocupando o lugar da mãe e, aí, tendo que se matar.  A culpa é insuportável, e na sua imaginação doentia ela não a suporta tendo então que dar fim à sua vida. O professor se confunde com o pai. Ela não consegue discriminar. Com o filme, acompanhamos a desintegração da saúde mental de Nina, devido à pressão do diretor, às duplas mensagens da mãe que superprotege e mal disfarça uma rejeição violenta e a chegada de uma concorrente. O diretor e o fotógrafo não economizam em uma inquietação das imagens e nas opções visuais que formam esse caminho, ilustrando essa viagem sem volta.

A mãe vê arranhões em suas costas e a chama de “garota doce”. Ela tem comportamentos autodestrutivos, como podemos ver nas várias cenas em que ela arranca a pele, rasga a sapatilha, rasga a unha do pé, vomita, etc. Tudo isso é uma tentativa de expulsar essa mãe violenta e rejeitadora. No Ballet precisa ser agressiva inclusive porque toma o lugar da primeira bailarina, Beth que é aposentada. Ela se culpa por ocupar o lugar da Beth, assim como se culpa por ocupar o lugar da mãe.

Nina tem que lidar também com uma rival quando chega Lily. Já que chega essa nova garota, ela vai para o banheiro vomitar.  A mãe telefona o tempo todo e ela também telefona para a mãe. Mas ao mesmo tempo, escutamos uma conversa da mãe com outra pessoa, dizendo que as meninas não têm a magia da Beth. Aí vemos a mãe dando uma dupla mensagem, quer que a filha seja perfeita como ela gostaria de ter sido, mas ao mesmo tempo, elogia a outra, dizendo que a Beth nunca fez nada menos que perfeito. Aí neste momento tem uma cena muito interessante: Ela toda de rosa cruza no corredor com uma garota toda de preto que tem o rosto dela. Ou seja, é o seu lado negro que se encontra dissociado.  Quando chega em casa abraça a mãe e começa a chorar. Aparece aí o pé sangrando, numa tentativa de mostrar o esforço que essa garota está fazendo para ser perfeita. A mãe vai tratar do pé e diz que lembra quando tudo começou, lembra que era ela quem levava a filha a cada uma daquelas aulas, ou então ela ficaria completamente perdida, etc. Ou seja, ela devia todo aquele sucesso ao sacrifício da mãe.

Mas o diretor diz que só vê nela o cisne branco, ela é bela, assustada e frágil, faz todos os movimentos corretos, mas não se entrega. E afirma que ela tem que surpreender, transcender. Ela que tinha ido até o diretor com o batom que havia roubado da Beth, e estava mais sedutora, dá uma mordida no Thomas quando este a beija.  É neste momento que ele descobre que ela também pode ser autêntica, também pode mostrar seu lado mais impetuoso, violento e hostil. Gosta disso e resolve dar-lhe o papel de cisne negro. Na mesma hora aparece no banheiro a palavra – VADIA. Seria uma alucinação? Não seria ela se recriminando?. A cena dos quadros no quarto da mãe, cheio de auto-retratos, mostra uma mãe narcisista e, diante de tanta pressão, começa a ter alucinações, vê as figuras se mexendo, como se todas a estivessem recriminando.  Arranha mais ainda as suas costas, e a mãe vem com um enorme bolo que havia comprado para festejar. Ela não quer comer, mas a mãe ameaça jogar o bolo inteiro fora, numa grande chantagem.  Então ela come o bolo.

Começamos então a acompanhar a desintegração da saúde mental de Nina, devido ao sucesso, a ter realmente substituído a Beth, ou seja, a mãe, à enorme pressão do diretor, e a chegada de uma concorrente. Tem uma festa onde ela é apresentada como a nova rainha dos cisnes. A mãe não vai à festa. Ela vai ao banheiro arrancar a pele do dedo numa cena impressionante onde vemos o quanto ela precisa se machucar. Talvez se machucar pra se sentir viva, assim como as pessoas que se cortam.

O Thomas a convida para tomar um drinque em sua casa, ela encontra Beth no hall da escada e esta a chama de vadia, pergunta o que foi que ela fez para conseguir o papel, etc. Ela vai realmente até a casa dele e ele tenta seduzi-la, mas percebe que ela ainda é virgem. Manda que ela vá para casa e se masturbe. Ela está começando a enfrentar a mãe, a sair com a amiga apesar da mãe tentar não deixar, vai para uma balada, aceita uma droga (vemos aí que Lily expressava o mundo da destrutividade interna da própria Nina), dança, se solta e escuta a mãe a chamar: “Garota doce, garota doce”. Volta para a casa e a mãe a enche de perguntas: Aonde foi? Tem idéia de que horas são? A mãe é super invasiva e ela coloca uma espécie de cabo de vassoura na porta querendo ter sua própria privacidade.

As cenas de masturbação, assim como as cenas de sexo com a Lily me pareceram uma tentativa dela conhecer o próprio corpo, uma tentativa de começar a conhecer a sua sexualidade. Aliás, na cena de sexo se prestarmos bem a atenção vamos ver que ela está transando com ela mesma, o rosto de Lily e o dela se confundem e aí ela mesma a chama de garota meiga, numa mistura também com a figura da mãe. Ela entra num estado de desorientação, não sabe mais se foi fantasia ou realidade. A culpa é tanta, que depois da primeira cena de masturbação ela alucina que a mãe está ali no quarto. No dia seguinte em que ela ousou desobedecer à mãe é o dia de um ensaio importante e a mãe não a acorda. O castigo é imenso! A mãe mostra que na realidade quer que a filha perca o papel, a mãe invejosa, a mesma mãe que dá o bolo, que fala que as meninas não têm a magia da Beth, que não vai à festa onde a filha é apresentada como a Rainha Cisne e que não a acorda no ensaio. Quebra a caixinha de música, joga fora seus bichos de pelúcia. Parece que está dando “adeus” à garotinha doce e meiga. Mas tudo isso lhe é imposto de fora para dentro, e ela não aguenta. Lily quer ser sua substituta, mas ela com medo de ser realmente substituída, começa a ensaiar desesperadamente, e começa a alucinar. Ouve gargalhadas quando as luzes se apagam, vê ou alucina o Thomas, o professor, o pai, transando com a Lily, ou com a rival , com a mãe, numa nítida cena primária onde se sente totalmente excluída e aí vai piorando. O clima vai ficando cada vez mais enlouquecido.

Tem uma cena onde se masturba na banheira e de repente vê umas gotas de sangue pingando, e vê um rosto que também é seu próprio rosto. O seu Eu destrutivo, a tinha machucado outra vez. Vai pedir desculpas à Beth, devolve as coisas que havia roubado e vê Beth se matar, com a lixa que ela havia devolvido. Triunfar sobre Beth, a aposentada Rainha-mãe, é sentido como um triunfo sobre a mãe. Vai devolver os objetos que havia roubado de Beth, para mostrar que ela imaginava não apenas estar roubando o lugar de Beth, mas também estava roubando o sonho da mãe. Ela está matando a mãe. Aí o conflito piora, começa a se arranhar cada vez mais, vê penas saindo de suas costas, vê seus pés tornando-se pés de cisne. Tem a cena das pernas se quebrando, significando um esfacelamento de ego.

A mãe atrás dela, quer saber se o professor está se aproveitando dela, e aí diz: “Só quero que você não cometa o mesmo erro que eu. Eu tinha 28 anos, estava no auge da carreira e tive que desistir para ter você”. Começa então a delirar, e briga com a Lily no banheiro, quebra o espelho e na sua alucinação pensa que matou a sua rival. Se prestarmos bem a atenção nesta cena, vemos novamente que é ela mesma, o rosto é o da Nina numa luta de morte entre o cisne negro e o cisne branco.  Aí, depois de matar o cisne branco, ela dança o cisne negro como nunca havia dançado. Foi maravilhoso, ela encarna tanto o papel que chega a alucinar que está criando penas. Beija o Thomas com sensualidade.

No final ainda diz que sentiu a perfeição – “foi perfeito”. E Morre! Precisou morrer porque estava interditada de mostrar seu cisne negro. Ou seja, para não matar a mãe, matou a si própria.


ANÁLISE DO CASO.

 

 

“ O esquizofrênico é louco aos nossos olhos,   porque aos seus, sua vinda a este mundo não tem sentido assuntível” .

                                                          - Perrier ¹

 

Muitos são os teóricos e autores que buscam pela gênese da Psicose, alguns aproximam-se com eficácia usando suas teorias para elucidar melhor como se elabora esse fenômeno da Psique humana, incluindo o grande explanador da Psicanálise Sigmund Freud, Carl Gustav Jung, J. Lacan, entre outros. Mas o que considera-se é que a Psicose desdobra-se em segredos tão soterrados na humanidade, que não há total certeza sobre muitas coisas remetentes à ela.

A Personagem da obra; Nina, caracteriza-se exatamente como uma pessoa que possui uma psicopatologia de cunho psicótico, enquadrando-se possivelmente no F20.0 (Esquizofrenia Paranóide); segundo a Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 (1993, pág. 88). Para uma melhor acepção sobre o que seria a Psicose, segue-se alguns comentários de autores inter-relacionados ao campo de estudo sobre os Transtornos e Estrutura Psicótica.

Segundo Dalgalarrondo, “as síndromes psicóticas caracterizam-se por sintomas típicos como alucinações, delírios, pensamento desorganizado e comportamento claramente bizarro”. (2008. pág.327 – cap:30). A psicose mais comum, por ter uma grande frequência nas clínicas é certamente a Esquizofrenia. Kurt Schneider elencou alguns sintomas de primeira ordem, para uma melhor identificação do transtorno como; percepção delirante, alucinações auditivas ou vozes de comando, eco do pensamento, roubo do pensamento, vivencias de influência na esfera corporal ou ideativa.

No que concerne ao CID-10 (1993, pág. 88), os sintomas mais comuns da Esquizofrenia Paranóide são:

(a)   Delírios de perseguição, referência, ascendência importante, missão especial, mudanças corporais ou ciúmes;

(b)   Vozes alucinatórias que ameaçam o paciente ou lhe dão ordens ou alucinações visuais sem conteúdo verbal, tais como assobios, zunidos ou risos;

(c)   Alucinações olfativas ou gustativas, de sensações sexuais ou outras corporais; alucinações visuais podem ocorrer, porém raramente são predominantes.

 

Diante de uma perspectiva Psicanalítica, observamos intensos conceitos sendo amplamente trabalhados no transcorrer da obra, inclusive, o próprio diretor Darren Aronofsky; durante entrevista concedida ao canal televisivo norte-americano BBC, esclareceu que todo o longa-metragem foi embasado e dirigido por sob uma ótica Psicanalítica clássica. Há conceitos utilizados por Freud como; Narcisismo Secundário, Transferência Projetiva e Castração Materna.

Agregando conjuntamente a Freud; Jacques Lacan, nos transfere conceitos como Função Espelho, “Doppelganger” ou O Duplo, Nome-do-pai e Função Materna. Numa abordagem Analítica Junguiana; de Carl Gustav Jung, encontramos conceitos inteiramente concomitantes com as nuances de sintomas do filme, pois, encontra-se conceitos como a Sombra (Lado sombrio), Persona (Máscara), Arquétipo Anima (Energia Feminina - Criativa), Arquétipo Animus ( Energia Masculina - Destrutiva), Inconsciente coletivo e Self ( Individuação).

Seccionaremos cada um desses conceitos, aliando-os ás cenas expostas da obra, conforme a sintomatologia dos personagens. Um personagem crucial para o entendimento da dinâmica psíquica de Nina é sua própria mãe Érika, observamos que a progenitora possui um laço simbiótico destrutivo para com a filha, ela deveria servir de apoia à maternidade e a identidade de ser desejante, que segundo Freud, seriam os dois destinos possíveis da mulher (FREUD, 1933-1932). A gravidez dela não tinha um valor sublimatório de desejo, ao interromper sua carreira profissional pela gestação, amargurou-se e então passou a projetar na filha, suas expectativas profissionais. Segundo Freud em Sobre o Narcisismo (Freud, 1914), cita a imortalidade do Ego, sendo reprimida pela realidade que renasce ao projetar-se nos filhos, destinados a tirar os pais das próprias frustrações passadas. Sendo assim, ela lamenta a morte do seu próprio desejo e o faz renascer para ser realizado através da filha.

A Projeção é um mecanismo de defesa do Ego, onde um evento doloroso nos impede de desfrutar do gozo libidinal; tende-se a projetar em um objeto externo, afim de realizar o gozo por meio desse objeto ou direcionar a culpa ao mesmo. É evidente o quanto Érika projeto em Nina seus anseios frustrados e como desloca a culpa, ódio e rancor para sua progênita. Constata-se traços narcísicos em Érika, visto que em uma das cenas em que Nina, chega em casa e busca por sua mãe nos cômodos da casa, para falar-lhe sobre a escalação do papel de Rainha Cisne, a câmera nos dá um enfoque em alguns quadros de autorretrato de sua mãe, com olhos grandes e persecutórios para com Nina, diante disso caracterizamos pontos de Narcisismo Secundário, onde o gozo é vivido através da importância social do ballet e como a mãe, foi quem disponibilizou todo esse suposto status de bailarina perfeita para a filha, há evidencias de Narcisismo também, em um dos momentos em que ela diz a Nina que lembra quando tudo começou, lembra que era ela quem levava a filha a cada uma daquelas aulas, ou então ela ficaria completamente perdida, etc. Ou seja, ela devia todo aquele sucesso ao sacrifício da mãe, nota-se o grau de responsabilidade que Érika projeta em Nina, para que a mesma sempre seja grata por ela chegar onde chegou, por conseguir ser a Rainha Cisne, tirando toda o mérito de Nina.

Érika mantinha uma constante castração materna diante de sua filha, alienando-a a figura do objeto da necessidade, e jamais de objeto de desejo, onde Nina unificou sua imagem a da mãe, em um transporte narcísico da realização de desejo da mãe, não constituindo-se enquanto sujeito, mas ainda num processo primário de extensão do seio materno; numa simbiose total com a mãe, que alimentava essa necessidade de assexualização de Nina, impedindo-a de redigir sua erogenização e alienação no desejo materno, a falta da figura paterna beneficiou para que a alienação se estabelece-se no objeto de necessidade primária. Aqui consequentemente o seio materno adotou a alienação, estando Nina entre uma linearidade entre amor e ódio de objeto materno, onde não houve uma estruturação de um ego próprio, mas a adoção do Ego da própria Mãe.

J. Lacan, nos elucida quanto a Função espelho que observamos com Nina e sua mãe, esteve extremamente fragmentado, com toda a pressão exercida pelo Superego da mãe e o controle exorbitante a todo momento, Nina não conseguia visualizar como unidade os aspectos femininos e maternos que a mãe deveria espelhar, mas apenas um olhar persecutório diante dela, dessa forma não teve em quem se espelhar enquanto objeto de desejo, não há um falo para ser desejado, consequentemente, não há uma narcisação do sujeito, Nina não constituiu-se enquanto sujeito, por isso, ela rouba o batom de Beth, pois visualiza na mulher uma figura feminina mais velha e com aspectos femininos bem delineados, projeta em lily o segundo espelhamento, uma sexualidade que lhe foi reprimida constantemente, mas em todos esses momentos, o espelhamento foi degradado, desmembrado e nunca por inteiro, sempre havendo falhas na constituição de Nina como um sujeito por inteiro, dessa forma, ela sempre se veria ligada ao corpo da mãe, como uma só. Atacar a mãe, seria se atacar, deixar-se descobrir a sexualidade seria roubar o lugar da mãe enquanto proprietária de função materna, conhecendo apenas a imposição, se Érika, não tivesse projetado tantas expectativas em Nina ou mesmo, tivesse apresentado a narcisação primária, com afeto e prazer, Nina talvez conseguiria estabelecer o objeto de desejo e não a alienação no objeto materno. Diante disso, Nina estabeleceu um Transtorno Alimentar, a Anorexia. Segundo Ana Maria Rudge e Betty Fuks (2013), “Está presente na Anorexia, um Superego extremamente feroz que incita à obediência, e cujos mandatos de autodestruição, muitas vezes, levam efetivamente a morte, a Anorexia tem como função estabelecer um corte ou um furo no Outro...”. Nota-se aqui que Nina, estava tentando estabelecer o corte com Objeto Materno que possibilitasse a realização do desejo, numa tentativa de constituir-se como sujeito pleno de sua vida, mas a pulsão de morte presente no ID de Nina conjunto com sua libido crescente, foi extremamente destrutiva para o Ego frágil dela, acarretando num surto psicótico.

Observa-se o conceito O Duplo de J. Lacan, onde Nina logo no momento inicial do filme, durante seu sonho, desdobra-se em inúmeras partes espelhadas, com sombreamento e luzes que emergem de suas costas, enquanto dança. Depois ao acordar, resolve se alongar na sala, de frente para o espelho, enquanto monologa sobre seu sonho, a câmera incide na imagem da mesma subdivida em duas, enquadrando-se na imagem de sua própria mãe, nos indicando que o outro de Nina, seria sua mãe, numa dissociação narcísica do estádio do espelho, não obtendo um reconhecimento de seu próprio corpo enquanto sujeito. Outra cena bem característica onde nota-se o fenômeno O Duplo é a cena em que Lily reflete-se de costas no reflexo de Nina no metrô, logo depois no espelho do camarim e depois na cena em que masturba-se em casa, num delírio sexual com Lily, mas neste pequeno ponto é que nota-se que Lily é seu Duplo, seu Outro, no qual Nina projeta-se como forma de reconhecimento, tentando constituir-se enquanto sujeito, mas, a dissociação de sua própria imagem, é desmembrada, estilhaçada como no espelho quebrado em pedaços no camarim.

J. Lacan, explana muito bem como a função paterna, especificamente o conceito Nome-do-pai, é percursor de uma estruturação adequada para a personalidade com a resolução do conflito Edipiano. Observa-se que, o diretor Thomas exerceu esse papel diante de Nina, como sua figura paterna, antes inexistente em sua vida, deixando-lhe a sensação de vazio e sucção, representando uma ferida no corpo materno. O Complexo de Édipo faz do pai o agente da proibição que o torna impossível acessar o objeto-causa-de-desejo, na análise estrutural de Lacan mostra que o pai não é quem garante a lei simbólica, mas é o único que autoriza desejo. “A verdadeira função do Pai… É, fundamentalmente, unir (e não se opor) um desejo à Lei”, escreveu ele em “Subversão do sujeito e dialética do desejo” (Lacan, p. 309).

Dessa forma, Thomas surge como a simbolização da liberação do gozo reprimido por anos, do Édipo que não foi constituído estruturalmente, quando ele a instiga beijando-a algumas pulsões oriundas do ID acabam surgindo e fazendo-a entrar em conflito com o Superego da mãe, fazendo-a sentir-se confusa, por estar querendo tomar o lugar da mãe como única capaz de ter sexualidade e feminilidade. Em uma cena, ela até mesmo pega uma barra de ferro e tenta colocar contra a porta, como forma de libertar-se da contante vigia da mãe, tentando de uma forma tardia elaborar, a simbolização do Nome-do-pai que o diretor despertou nela. Quando ele pede para que ela se masturbe, está liberando o desejo dela, por isto, nessa cena, ela acaba vendo a imagem da mãe, como o Outro, já que são uma só, ela não poderia se tocar, sem tocar a mãe em cossonância. Como seu Ego é frágil ou inexistência de seu próprio Ego, e todos esse conflitos acabam desestabilizando cada vez mais a frágil estrutura de sua personalidade, desencadeando então em alucinações e delírios, pois seu ego inexistente não consegue mais filtrar as pulsões vindas de seu ID desperto, que reprimiu-se durante anos e a pressão e olhar persecutório do Superego de sua mãe, cobrando-a para regredir ao seu estado assexuado e infantil.

Numa perspectiva Analítica Junguiana, Nina claramente adota a Persona de filha perfeita e de bailarina excepcional; Persona é o conceito pela qual o Sujeito adota Máscaras sociais e papéis que lhe designam, para que consiga lidar com sua psicodinâmica de forma adequada sem prejuízos a si e aos outros. Nota-se esse aspecto sendo utilizado, quando Lily apresenta alguns amigos dela a Nina, na balada e eles perguntam “Quem é você?”, no que ela responde “Sou uma bailarina”, Nina introjetou em si de tal modo essa Máscara de bailarina perfeita, que sua mãe acabou projetando nela que não conseguia visualizar-se enquanto sujeito próprio, com suas próprias características e aspectos.

Um fator a ser salientado, é o Arquétipo Anima presente na fase inicial do filme, onde Nina representa toda a pureza, feminilidade, pudor e delicadeza, quase que infantil, o que o próprio diretor disse caracterizá-la exatamente como o Cisne Branco, mas quanto ao aspecto mais sensual, sombrio e destrutivo que Thomas queria que ela deixasse fluir, só veio surgir quando Nina, estava sob os delírios e alucinações, quando o Arquétipo Animus extravasava-se em uma onda de criatividade, sensualidade e destrutividade que Nina não conseguiu equilibrar, por não ter um Ego totalmente formado, estável e maduro, se ela possuísse um Ego equilibrado, conseguiria utilizar a força, sensualidade e criatividade bruta do Animus, com a delicadeza e pureza feminina e mais dócil do Anima, com excelência, representando bem os dois papéis e saindo ilesa da destruição presente no Animus.

O conceito do Arquétipo Sombra de Jung, esteve presente durante todo o transcorrer do longa, onde desde o início da trama, durante seu sonho, observamos características da expressão de seu lado sombrio emergindo ao poucos, durante a cena da caminhada que ela faz e cruza com sua versão mais sensual e sombria no túnel, durante todas as cenas em que olha-se no espelho e começa ver-se como o Cisne Negro, durante as vezes em que Projeta todo seu conteúdo sombrio, reprimido e que a envergonharia em Lily, projetando nela a sensualidade reprimida pela mãe, seu ódio materno, sua vontade de ter escolha própria, projeta também sua paranoia nos outros, como forma de auto julgamento, Nina busca pelo alcance da perfeição, como sendo seu processo de Individuação, seu Self, no qual só consegue alcançar durante sua morte, quando olha nos olhos da mãe, depois de ter executado com maestria dos dois papéis, utilizando as energias do Anima e Animus conjuntamente, integrando-se totalmente em um único ser, alcançando o estado de individuação ou de elaboração total de seu Self.

No que concerne a toda a sintomatologia presente de Nina na obra, podemos observar um grande traço persecutório instalado em sua Psique, oriunda de má estruturação e da alienação no objeto materno, há cenas em que os delírios são evidentes, como quando ela olha-se no espelho e observa penas crescendo de suas costas, seus olhos ficando vermelhos, em uma alucinação visual, o roubo de pensamentos, quando acha que sua mãe estava escutando o que a mesma estava pensando.

Outro sintoma bem definido de que ela acabou por desenvolver uma Esquizofrenia, foi justamente pelo autoa-gressividade presente nos momentos em que acabava por se arranhar, arrancar pedaços de cutículas das unhas, como forma de expulsão dos delírios. Nina, enquadra-se no transtorno por ter esses delírios persecutórios; como quando ela olha para os colegas durante a dança e acha que os mesmo estão julgando-a, por ter laços sociais debilitados, em todas as esferas de sua vida, como os problemas relacionais com a mãe, com seus colegas de trabalho e em outros que não foram visualizados no filme e seus delírios de ruína, quando acha que não é boa o suficiente para exercer os papéis, todas essas características presentes possibilitam um diagnóstico concreto sobre Nina ter desenvolvido Esquizofrenia Paranóide.

 

CONCLUSÃO.

 

Diante de todos os expostos acima, podemos observar como toda a Psicodinâmica de Nina Sayers estava totalmente debilitada diante, de vário sintomas presentes na Esquizofrenia, seu histórico familiar é de extremos abusos emocionais oriundos de uma má relação maternal, onde os papéis paternos, não foram bem desempenhados, acarretando em grandes entraves para o desenvolvimento de uma personalidade adequada, o filme presente, foi grandemente esclarecedor, quanto a uma ótica Psicanalítica sobre a possível origem de um quadro Psicótico tão complexo quanto a Esquizofrenia, nota-se como o filme foi totalmente plausível ao direcionar todo o olhar, por sob como a própria Nina via sua vida, fazendo-nos compreender como os delírios e alucinações são tão aterrorizantes para quem presencia tal atividade psíquica e como os laços familiares são tão responsáveis por uma boa formação da estrutura psíquica dos indivíduos, durante a primeira vez em que assiste-se a obra, não é possível compreender de uma totalidade os fenômenos expostos, mas, ao ler os conceitos e teorias, comparando-as a todas as cenas, podemos ver como, a Psicose ainda é inteiramente singular, levantando tantas perguntas a serem respondidas, fazendo-nos pensar em quantas coisas, poderiam ter sido evitadas, para que o fim trágico não tivesse sido consumado diante de toda a vida de sofrimento de Nina. Um filme totalmente angustiante, promissor e esclarecedor, muito ainda faltou a ser abordado para opinar sobre o filme, tantos conceitos que podem ser aplicados, mas que estenderia por demais essa análise.

No mais, conclui-se que o filme foi de extrema importância para uma boa visualização sobre essa dinâmica psíquica de uma pessoa Esquizofrenica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

 

CID-10. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 10ª rev. São Paulo: Universidade de São Paulo; 1997. vol.1. 5. Organização Mundial da Saúde.

 

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos      Mentais. 2ª. ed. Artmed. Porto Alegre, 2008.

 

SOUZA FILHO, Aurélio de Andrade. et al; CHECCHINATO, Durval. A Clínica da Psicose. 2ª. ed. Papirus. Campinas; SP, 1988.

 

JUNG, C. G. Sobre sentimentos e a sombra: Sessões de perguntas de Winterthur/ C. G. JUNG; tradução de Lorena Richter. 2ª. ed. Vozes. Petrópolis; RJ. 2015.

 

JUNG, C. G. O homem e seus símbolos; tradução de Maria Lúcia Pinho. 3ª. ed. Especial. Harper Collins Brasil. Rio de Janeiro. 2016.

 

MEDIOLI, G. Cristina. O Filme: “Cisne Negro” – Alguns Comentários. Reverso. Belo Horizonte; MG. 2011.

 

WEINMANN, O. Amadeu; EZEQUIEL, S. Verônica. Encontros Sinistros: Uma análise do filme Cisne Negro. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre; Rio Grande do Sul. 2015.

 

MELMAN, Charles. Nome-do-Pai na Psicanálise de Lacan. Universidade Federal de São João del- Rey (UFSJ). 2017.

 

WALLBACH, R. Maria. Comentários do filme O Cisne Negro. Reunião Científica Cultural no Núcleo Psicanalítico de Curitiba. São Paulo. 2011.

 

TOSO, André. “Cisne Negro”: Uma aula de introdução à Psicanálise. Sociedade Paulista de Psicanálise. São Paulo. 2011.

 

 

RUDGE, Ana Maria; FUKS, Betty. Corpo Pulsional e seus desvarios: Voz e corpo anoréxico. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Departamento de Psicologia, Rio de Janeiro. 2013.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Análise Psicológica sobre o filme: "Shame".

 

“SHAME” E SUA RELAÇÃO COM A ESTRUTURA DE PERSONALIDADE NEURÓTICA OBSESSIVA COMPULSIVA SEGUNDO O VIÉS PSICANALÍTICO


Anderson de Oliveira Pereira¹

 

SHAME.  Direção:  Steve McQueen.  Produção:  Iain Canning, Emile Sherman.  Roteiro:  Abi Morgan; Steve McQueen.  Reino Unido:  Paris Filmes, 2011. DVD (101 min), son, color, legendado.

 

Resumo da obra

 

A partir de leituras prévias e construtos aprendidos durante a graduação, possibilita-se a análise psicopatológica da presente obra, compreende-se que, por se tratar de uma ficção, elementos significativos para um diagnóstico correto não se fazem presentes, com isto, todo o escrito conclui-se enquanto teorias e sugestões.

A análise partirá de um conceito principal de Freud, a Angústia. O sintoma como um estado patológico, desencadeia a inibição, advinda de uma reação a angústia presente no sujeito, a partir do primeiro trauma humano, o nascimento, bem como o processo edipiano e a perda do objeto amado (mãe), o temor da castração fálica e o embate moral com o superego, ressalta-se que todos estes aspectos permeiam diferentes fases do desenvolvimento da libido.

O filme, com direção de Steve Mcqueen, foi lançado no ano de 2011. O protagonista do filme é Brandon, homem bem sucedido, sua vida é regada de excessos na sexualidade, envolto em prostituição e pornografia, até sua rotina ser alterada pela chegada de sua irmã Sissy, cantora e com uma vida instável, devido isto, instala-se na casa do irmão a contragosto, nota-se durante toda a trama, a ambivalência de afetos presentes e sentimentos que causam conflitos internos. A convivência entre os dois culminam em constantes desavenças, pois, a irmã acaba por transgredir com a rotina sexual de masturbação, visitas de prostitutas e sexo virtual, que Brandon realizava antes da chegada de Sissy.

Após encontrarem vídeos pornográficos no computador da empresa, que Brandon utilizava para trabalhar, seu chefe lhe chama atenção por este fato, sua irmã o flagra se masturbando e ainda encontra artigos pornográficos na sua casa, com isto, o protagonista dá-se conta de como sua relação com o sexo é patológica e através disto, tenta livrar-se de seus comportamentos, a partir disto, busca um relacionamento com sua colega de trabalho, contudo, não consegue envolver-se profundamente e logo afasta-se da mesma, frente a isto, sua relação com o sexo aprofunda-se de maneira exacerbada e dilacerante, ele expulsa sua irmã de sua casa e renega toda a aproximação entre os dois. Esta relação culmina então na fase final do filme, onde Sissy aparenta uma tentativa de suicídio, onde Brandon sofre muito e evidencia o quanto se importa com a irmã.

 

Análise Psicanalítica

 

Durante profundos momentos reflexivos frente as teorias e construtos teóricos sobre as estruturas de personalidades, compreende-se que Brandon, não é um Perverso, mas, Neurótico Obsessivo Compulsivo. Isso evidencia-se de forma clara, quando observamos que o Ego e o Id de Brandon, estão em conflito, o Id como a gênese das pulsões não manifesta conflitos, pois, é regido pelo princípio do prazer e é inconsciente, enquanto o Ego, é regido pelo princípio da realidade e é instância psíquica mediadora entre os desejos pulsionais do Id, os imperativos do Superego e o mundo exterior processando as identificações e gerando os mecanismos de defesa.

É justamente este o ponto onde queremos chegar, pois, a Neurose obsessiva surge justamente deste conflito, entre o Ego tentando responder aos imperativos do Superego (Nosso construto moral), regido pelo princípio da realidade e as pulsões do Id. Em Brandon, podemos perceber que este conflito entre Ego – Superego, teve início durante a infância dele, não há cenas que remetem a vida infantil dos personagens, contudo, nota-se que ao falar da família, os irmãos acabam por reviver processos traumáticos, sugere-se então que durante o processo edipiano de Brandon, ele tenha deslocado o desejo incestuoso antes posto no lugar materno, para a figura feminina da irmã Sissy, o que corrobora para um comportamento obsessivo é o isolamento social, geralmente presente como sintoma de uma neurose obsessiva compulsiva, e para Brandon, sua compulsão gira na esfera do sexo.

O Sintoma, como diria Lacan, é tudo aquilo que envelopa a fantasia, o gozo, é o significante de um significado recalcado da consciência do sujeito (Lacan, 1953/1998, p. 282). Em sua sintomatologia, Brandon explicita sua neurose obsessiva, através de comportamentos compulsivos, principalmente quando há os gatilhos estressores, há uma necessidade compulsiva de masturbar-se frequentemente, onde ele realizou tais atos em banheiros públicos, no metrô, em sua casa, em bares e outros lugares. A presença da pornografia também, a excitação visual e o corpo feminino, são como objetos para Brandon, contudo, aqui não é como em uma estrutura perversa onde este objeto sexual, surge como fonte de Sadismo ou Masoquismo, para Brandon, tais comportamentos causavam angústia destrutiva em sua vida e para seu Ego, o sintoma mais evidente desta angústia é a dificuldade em comprometer-se em uma relação afetiva, que não envolva apenas sexo, o aprofundamento de suas relações nunca existiram, pois, assim Brandon, teria de resolver seu conflito edipiano com a irmã.

Além disto, na neurose obsessiva, ocorre a Inibição, onde ocorre a distinta separação entre Amor e Sexo, Brandon como neurótico obsessivo, compreende as manifestações de amor, separadas do sexo, por isto, tão impossível é para ele relacionar-se com a sua colega de trabalho, visto que, se ele se possibilitasse amá-la, não poderia exercer o sexo com ela, da forma como ele vivencia o sexo, exacerbadamente. Nestas representações, o significado de um não pode corromper o outro, assim, Brandon ao se deparar com a junção destes dois, é obrigado a retornar ao seu conflito edipiano, assim, a angústia se amplia e ele desloca então, o significante de amor, para longe do sexo.

De acordo com Freud, a inibição é o resultado da aproximação com o desejo reprimido (a figura materna, deslocada para a irmã Sissy), oriunda do complexo de édipo não resolvido. O sexo então para Brandon, surge como uma fuga a aproximação amorosa, que lhe faria lidar diretamente com o sintoma, desta forma, busca por parceiros que não possuem ligação com ele, pois, um relacionamento lhe retiraria a compulsão, sobrando apenas a angústia de lidar com este sintoma, o que hipoteticamente, lhe faria ter uma passagem ao ato, como forma de aliviar a pulsão de morte, tão presente nele, como nas cenas na qual ele, busca por esta flagelação de seu corpo físico, como forma de punição advinda de seu superego, em que, procura uma briga no bar, como também, na cena em que faz sexo com duas mulheres e transfigura dor, angústia, rejeição ao sexo, contudo, não consegue parar, impelido por sua compulsão, o que denota também, a realização de uma pulsão de morte latente.

Outro conceito crucial presente na ficção, é a Angústia, que permeia toda a obra. Há cenas em que observamos isto, principalmente quando ele tem de lidar com seus sentimentos ambivalentes em relação a irmã, ao censurar o envolvimento de Sissy com seu chefe, Brandon, literalmente utiliza a moralidade de seu superego, ao identificar-se com a vida de seu patrão, observando que, a irmã jamais poderia envolver-se com alguém como ele, numa crítica a posição de objeto de desejo que ele colocou a irmã, assim, ao ter de recalcar este desejo incestuoso, a angústia surge, como forma de esvaziamento da pulsão diante do ego, que, segundo Freud, seria a angústia moral.

Um personagem passível de análise, é também, Sissy, a irmã de Brandon. Ela sim, podemos observar uma estrutura de personalidade perversa, onde, o masoquismo presente em suas relações faz jus a teoria visto que, todos os seus relacionamentos são problemáticos e a mesma, sabe que eles não são produtivos, envolve-se com o chefe do irmão, mesmo sabendo que ele é casado e não poderia responder as suas expectativas, seus ex-namorado, lhe agredia e ela, liga para ele em uma cena e pede, para que ele apenas diga que quer ficar com ela, pois, somente assim ela poderia existir, que somente ver ele, serviria para alegrá-la. A relação com o irmão, também simboliza isto, pois, o irmão em seus sentimentos ambivalentes, demonstra hostilidade para tentar afastar ela, Sissy por sua vez, sempre retorna ao irmão, pois, ele também é seu objeto de desejo, visto que, sabe que com ele, ela poderá sempre alimentar esta pulsão de morte, quando há a ruptura entre esta relação, a angústia se faz presente também nela e a partir disto, ela tem uma passagem ao ato, em um fim autodestrutivo, pode-se também, interpretar como uma passagem ao ato da neurose, visto que, poderia ser uma forma de chamar atenção em uma neurose conversiva, contudo, observa-se que, ela não quer alimentar o seu desejo, mas o objeto a, o outro, diferente da neurose conversiva, onde a pulsão de desejo, realiza-se no narcisismo secundário e não, no primário, como nos perversos.

Portanto, esta obra, torna-se extremamente significativa, para quem, gostaria de aprofundar-se numa análise sob o viés da psicanálise, visto que, é permeada de conceitos cruciais, assim, a “Vergonha”, que é a tradução para o título do filme, “Shame”, abre possibilidades para várias perguntas, qual seria esta vergonha na verdade?

 

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO

 

LACAN, J. (1998). Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. Em Escrito. (pp. 238-324). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Original publicado em 1953).

 

FREUD, S. Inibição, sintoma e ansiedade. In: Obras Psicológicas Completas. Edição Standart Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996 [1926].

 

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