terça-feira, 11 de maio de 2021

Relato de Experiência de estágio - Comunidade Terapêutica.

 

A PERCEPÇAO DOS ESTAGIÁRIOS NA TRIAGEM E ATENDIMENTO PSICOLÓGICO DENTRO DA COMUNIDADE TERAPÊUTICA COMUNIDADE FAMÍLIA ROSETTA EM PORTO VELHO-RO

Anderson de Oliveira Pereira¹

Ana Paula de Almeida ²

 

 

RESUMO

Refere-se a abordagem de um relato de experiência descritivo e bibliográfico cuja finalidade é compreender a percepção dos estagiários que estiveram exercendo funções de atendimento de triagem psicológica e atendimento psicoterápico de orientação breve, visando identificar fatores experienciais relevantes para uma constituição de prática profissional, além de esclarecer sensações presentes nos atendimentos, como medo, angústia e ansiedade. Evidenciar como funciona o tratamento com indivíduos que estão em uma unidade de internação e como os pacientes sintetizam esse tratamento por meio dos atendimentos, também de transformar os estigmas presentes, no tratamento oferecido em comunidades terapêuticas que estão cerceadas em um ideal religioso em um fundo que atravessa esses indivíduos internados que visam um tratamento e como a Psicologia, torna-se uma prática efetiva para essas comunidades.

 

Palavras-chave: Estagiários, Comunidades terapêuticas; Atendimento Psicoterápico.

 

 

INTRODUÇÃO

“ Tudo que é amado, cresce”
-  Padre Vincenzzo, Casa família Rosetta.

 

A Comunidade Terapêutica Associação Casa Familia Rosetta, fundada em 1992 pelo padre Vicenzzo, percursor e coordenador mestre, onde inúmeros serviços são ofertados pela instituição, como o programa terapêutico, que visa prevenir, tratar, recuperar e reinserir os indivíduos em situação de risco e aqueles que possuem dependências químicas na sociedade de forma digna e integral.

As comunidades terapêuticas, segundo Laura Fracasso (2017): São serviços, urbanos ou rurais, de atenção a pessoas com transtornos decorrentes do uso ou abuso de substâncias psicoativas (SPA), em regime de residência ou outros vínculos de um ou dois turnos, segundo o modelo psicossocial; são unidades que têm por função a oferta de um ambiente protegido, técnica e eticamente orientado, que forneça suporte e tratamento aos usuários abusivos e/ou dependentes de substâncias psicoativas, durante período estabelecido de acordo com programa terapêutico adaptado às necessidades de cada caso. É um lugar cujo principal instrumento terapêutico é a convivência entre os pares. Oferece uma rede de ajuda no processo de recuperação das pessoas, resgatando a cidadania, buscando encontrar novas possibilidades de reabilitação física e psicológica e de reinserção social (ANVISA, 2001).

 

Diante disso, para um embasamento teórico necessário aos atendimentos, utilizou-se a abordagem psicanalítica como norteadora da escolha das técnicas a serem executadas nos atendimentos. Autores como, Guerra & Vandenberghe (2017) introduzem o estado da arte referente a dependência química no Brasil; Figlie & Guimarães (2014), que dialogam sobre a importância extrema da entrevista motivacional, no que tange o tratamento com dependentes químicos, tanto nas comunidades terapêuticas, quanto nos CAPS (Centro de Assistência Psicossocial).

Cabe salientar os contributos de Schimith; Murta & Queiroz (2019), com estudos recentes sobre a abordagem dos termos de dependência química, toxicomania e drogadição no campo da psicologia brasileira. Barros; Dantas & Silva (2018), enfocam a importância da psicoterapia em grupo, sob uma perspectiva psicanalítica no avanço do tratamento e benefícios que propiciam a expressão dos sentimentos e pertencimento social que apenas as vivências em grupo proporcionam.

 

METODOLOGIA

 

Partindo do princípio de uma análise descritiva e bibliográfica foi realizado algumas atividades de campo na comunidade Associação Casa Família Rosetta, que presta atendimento intensivo a comunidade local e integral de Porto Velho, composto por uma unidade de atendimento psicológico, com salas de atendimento individual, visando o acolhimento de pacientes que necessitam de atenção e cuidados por uma equipe multiprofissional, de maneira que a prática atrelada ao campo de atuação é triagem psicológica e atendimento psicoterápico. Como prática da atuação psicológica foi utilizada entrevistas semiestruturadas, visando a busca por uma história pregressa do indivíduo que buscava por atendimento na instituição, escuta terapêutica, por meio de psicoterapia breve, entrevistas motivacionais, aconselhamento, acolhimento a internados, familiares, profissionais da instituição e outras demandas da comunidade, como crianças e adolescentes, encaminhados ou por demanda espontânea.

 

DISCUSSÃO E RESULTADOS

 

Aconselhamento Psicológico

 

Segundo Trindade & Teixeira (2000), o aconselhamento psicológico surge como uma relação de ajuda que visa facilitar a adaptação de forma mais satisfatória do sujeito à situação em que se encontra, otimizando os seus recursos pessoais em termos de autoconhecimento, autoajuda e autonomia. Dessa forma, o principal objetivo é promover o bem-estar psicológico e a autonomia pessoal no confronto com as dificuldades e os problemas, como uma forma de psicoeducação para o sujeito.

Contrariando o senso comum, Teixeira & Trindade (2000, apud, Rowland, 1992), aconselhar não é apenas dar conselhos como faria a um amigo, fazer exortações ou mesmo encorajar disciplina e prescrever condutas que deveriam ser seguidas, de acordo com o próprio senso moral e ético. Pelo contrário, trata-se de ajudar o sujeito a compreender-se a si próprio e à situação em que se encontra e ajudá-lo a melhorar a sua capacidade na tomada de decisões que lhe sejam benéficas.

Ainda segundo, Teixeira & Trindade (2000, apud, Bond, 1995), O aconselhamento psicológico é diferente de psicoterapia, pois as diferenças referem-se a aspectos específicos, tais como: o caráter situacional; foco intenso na resolução de problemas do sujeito; localização no presente (aqui e agora); duração mais curta (em torno de semanas a no máximo 6 meses); mais orientado para a ação do que para a reflexão (mesmo sendo de suma importância a autorreflexão); predominantemente mais centrado na prevenção do que no tratamento e a tarefa essencial do psicólogo é a de facilitar a mudança de comportamento e ajudar a mantê-la.

Alguns autores abordam que, a Psicanálise acaba sendo ineficaz na utilização do aconselhamento, pois, demandaria de um tempo específico para que as técnicas necessárias dessa abordagem fizessem efeitos no sujeito a ser aconselhado, onde a indicação para casos de atuação em contextos de áreas da saúde como um CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial) por exemplo, abordagens como a Terapia Cognitiva-Comportamental é mais indicada. Contudo, segundo Teixeira & Trindade (2000, apud, Davy, 1999), Seja qual for o modelo teórico, há vantagem em integrá-lo numa abordagem holística da saúde que inclua a consideração simultânea do estado de saúde, do bem-estar psicológico, das competências sociais e da qualidade de vida. Isto é, o aconselhamento deve enquadrar-se numa abordagem biopsicossocial que promova a combinação da intervenção psicológica especializada sobre a experiência de saúde ou de doença com a intervenção médica, tendo em conta que a experiência da doença relaciona-se com a intersecção entre os processos de doença, o ciclo de vida e o desenvolvimento, dentro dum contexto sociocultural.

 

Entrevista Motivacional

 

Segundo Guimarães e Figlie (2014, apud, Miller & Rollnick, 2013), a entrevista motivacional é um estilo de conversa colaborativa voltado para o fortalecimento da sua própria motivação e comprometimento com uma mudança. Por se tratar de uma abordagem que tem uma meta específica, que é resolver a ambivalência, é compreendida com caráter de intervenção breve, podendo assim, ser utilizada por uma ampla gama de profissionais em diferentes serviços.

Assim, para que a aprendizagem da EM ocorra, é preciso que o profissional tenha como alvo passar por oito estágios, sendo eles: Trabalhar em parceria com o cliente, baseando no reconhecimento de que é o especialista em sua própria vida; Habilidade em oferecer um aconselhamento centrado no cliente, incluindo empatia precisa; reconhecer os aspectos chave das falas do cliente norteadoras para a prática da EM; Eliciar e fortalecer as falas de mudança do cliente; Lidar com a resistência; Negociar um plano de ação; Consolidar o compromisso do cliente com a mudança; Ser flexível no uso da EM juntamente com outros estilos de intervenção (Figlie; et al. 2015).

 

Dependência Química: Estado da Arte

 

Segundo Guerra & Vandenberghe (2017), O uso abusivo de substâncias psicoativas é um problema de saúde pública que afeta todas as dimensões da vida de seus usuários, o que vem contribuindo drasticamente para o aumento de inúmeros problemas encontrados não só em quem usa as drogas e/ou depende delas, como também nos contextos sociais em que estão inseridos: comportamento violento; menor capacidade de julgamento; dificuldades profissionais; abandono dos estudos; rompimento de vínculos, inclusive familiares; problemas psiquiátricos, entre outros (Assis, 2011; Ribeiro, Nappo & Sanchez, 2012).

O prazer associado à droga é intenso e muitas vezes imediato, o que facilita a compulsão pelo uso/abuso de drogas de forma desenfreada e as alterações fisiológicas do cérebro, anormalidades comportamentais e dificuldades sociais. Diante da complexidade de sua natureza, o uso abusivo de substâncias psicoativas é considerado por alguns estudiosos como uma doença crônica, necessitando de abordagens de tratamento que integram todas as áreas afetadas, assim diz Guerra & Vandemberghe, (2017, apud, Bordin, Grandi, Figlie & Laranjeira, 2010; Laranjeira, 2012).

Ainda segundo Guerra & Vandemberghe (2017), levando em consideração o elevado custo social e o sofrimento subjetivo do problema, o presente estudo objetivou conhecer a literatura nacional acerca da reabilitação do dependente químico. Diante disso, concluiu que, Pesquisadores brasileiros têm se dedicado ao estudo de programas e estratégias de tratamento do uso abusivo de substâncias psicoativas que sejam eficazes na superação desse problema de saúde pública.

Diferentes estratégias de tratamento têm sido alvo desses estudos, por contemplar a integralidade do sujeito, isto é, uma abordagem biopsicossocial e espiritual. Entretanto, ainda há clínicas psiquiátricas, Comunidades Terapêuticas e internações compulsórias como opções de tratamento, mesmo que isso signifique, muitas vezes, permanecer na segregação social e impossibilitar a liberdade de decisão do sujeito, o que diminui a promoção de sua autonomia.

O acolhimento da subjetividade do sujeito, o respeito por suas decisões e escolhas, e cuidados direcionados também aos seus familiares parecem ser aspectos de grande relevância e influência na eficácia dos diversos programas e estratégias de tratamento no combate ao uso abusivo de substâncias psicoativas.

 

Psicoterapia de Grupos

 

Segundo Barros; Dantas & Silva (2018), durante um estágio numa ONG, que visava o atendimento com Psicoterapia em Grupos com a abordagem psicanalítica, percebeu-se que a Psicoterapia de Grupo mostra-se como uma excelente ferramenta terapêutica para o restabelecimento da saúde mental das pessoas em situação de uso abusivo de álcool e drogas, sendo funcional, prática, dialógica e acessível a todos.

Aplicável, não faculta grandes gastos e pode atender a um número maior de pacientes em cada sessão. Permite aos profissionais a observação, aprendizagem e a possibilidade de obter uma experiência ímpar ao se colocar à disposição para ouvir as polifonias advindas das diversidades que se encontram na subjetividade do ser humano.

Ainda de acordo com Barros; Dantas & Silva (2018), a Psicoterapia de Grupo é uma ferramenta totalmente eficaz para o tratamento e melhora das pessoas em situação de adição, sendo plenamente indicada para grupos homogêneos ou heterogêneos, abertos ou fechados, com data de finalização ou não; sem a falsa pretensão, de que todos permanecerão em abstinência ou mesmo em redução de uso; sabemos que o índice de reincidência é alto, mas é óbvio que é extremamente oportuna e eficaz esta aplicação terapêutica, sendo um excelente suporte em CT’S (Comunidades Terapêuticas), Casas-lares, ou qualquer instituição que atenda pessoas em situação de drogadição.

O importante é que seja estabelecido dentro do processo de tratamento, um plano terapêutico com coordenação, compromisso entre os profissionais, aliança terapêutica, sigilo, onde haja coesão, métodos, técnicas, um manejo clínico eficaz e o vínculo terapêutico estabelecido, a empatia, a esperança e acima de tudo o amor pelo que se faz

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Diante de todo o percurso vivenciado na Comunidade Terapêutica, Associação Casa Familia Rosetta, percebemos que a instituição surge como um arauto de esperança para a comunidade tão carente na cidade de Porto Velho, pois oferece inúmeros benefícios em geral. O acolhimento foi genuíno e de suma importância para uma melhor adaptação, o estágio em si foi enriquecedor, visto que nos foi oportunizado a prática de atendimentos, os quais sem o auxílio dos artigos que nos serviram como base, bem como todo os transcurso no decorrer da graduação e acúmulos de conhecimentos, não teríamos executado um trabalho psicoterápico agradável aos que buscaram atendimento na unidade de internação.

Sabe-se que as comunidades terapêuticas são extremamente criticadas no que tange as suas práticas de reinserção social, visto que baseiam-se em uma prática religiosa, mas, tem seu posicionamento político e social, pois transforma vidas de forma digna e saudável, as técnicas motivacionais intercalaram-se tanto nos atendimentos quanto no que foi perpassado pelos matérias de orientação.

A prática neste estágio, proporcionou outro olhar para a Psicologia Social, seu papel e como os profissionais de Psicologia, carecem de serem inseridos nestas instituições que estão sedentas por profissionais que possam contribuir com seus saberes e práticas. Voluntariados foram programados a serem executados, fora da prática de estágio necessária da grade curricular.

Portanto, este estágio foi exemplar na vivência desta instituição.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BARROS, Martha Luciene Nogueira Dantas; DANTAS, Jeiel Silva; SILVA, Gessé de Souza. A Psicoterapia de Grupo no Atendimento a Dependentes Químicos – Relato de Experiência em um Projeto Social. Revista Ciência, Bahia. 2018.

 

FIGLIE, Neliana Buzi; GUIMARÃES, Lívia Pires. A Entrevista Motivacional: Conversas sobre mudanças. Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo. 2014.

 

TRINDADE, Isabel; TEIXEIRA, José. A. Carvalho. Aconselhamento Psicológico em Contextos de Saúde e Doença – Intervenção Privilegiada em Psicologia da Saúde. Análise Psicológica. 2000.

 

GUERRA, Marcella Regina Silva Rieiro; VANDEMBERGHE, Luc. Abordagem do Comportamento do uso abusivo de substâncias psicoativas no Brasil: o estado da arte. Pesquisas e Práticas Psicossociais, São João del Rei. 2017

 


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