segunda-feira, 10 de maio de 2021

Análise Psicológica sobre o filme: "Shame".

 

“SHAME” E SUA RELAÇÃO COM A ESTRUTURA DE PERSONALIDADE NEURÓTICA OBSESSIVA COMPULSIVA SEGUNDO O VIÉS PSICANALÍTICO


Anderson de Oliveira Pereira¹

 

SHAME.  Direção:  Steve McQueen.  Produção:  Iain Canning, Emile Sherman.  Roteiro:  Abi Morgan; Steve McQueen.  Reino Unido:  Paris Filmes, 2011. DVD (101 min), son, color, legendado.

 

Resumo da obra

 

A partir de leituras prévias e construtos aprendidos durante a graduação, possibilita-se a análise psicopatológica da presente obra, compreende-se que, por se tratar de uma ficção, elementos significativos para um diagnóstico correto não se fazem presentes, com isto, todo o escrito conclui-se enquanto teorias e sugestões.

A análise partirá de um conceito principal de Freud, a Angústia. O sintoma como um estado patológico, desencadeia a inibição, advinda de uma reação a angústia presente no sujeito, a partir do primeiro trauma humano, o nascimento, bem como o processo edipiano e a perda do objeto amado (mãe), o temor da castração fálica e o embate moral com o superego, ressalta-se que todos estes aspectos permeiam diferentes fases do desenvolvimento da libido.

O filme, com direção de Steve Mcqueen, foi lançado no ano de 2011. O protagonista do filme é Brandon, homem bem sucedido, sua vida é regada de excessos na sexualidade, envolto em prostituição e pornografia, até sua rotina ser alterada pela chegada de sua irmã Sissy, cantora e com uma vida instável, devido isto, instala-se na casa do irmão a contragosto, nota-se durante toda a trama, a ambivalência de afetos presentes e sentimentos que causam conflitos internos. A convivência entre os dois culminam em constantes desavenças, pois, a irmã acaba por transgredir com a rotina sexual de masturbação, visitas de prostitutas e sexo virtual, que Brandon realizava antes da chegada de Sissy.

Após encontrarem vídeos pornográficos no computador da empresa, que Brandon utilizava para trabalhar, seu chefe lhe chama atenção por este fato, sua irmã o flagra se masturbando e ainda encontra artigos pornográficos na sua casa, com isto, o protagonista dá-se conta de como sua relação com o sexo é patológica e através disto, tenta livrar-se de seus comportamentos, a partir disto, busca um relacionamento com sua colega de trabalho, contudo, não consegue envolver-se profundamente e logo afasta-se da mesma, frente a isto, sua relação com o sexo aprofunda-se de maneira exacerbada e dilacerante, ele expulsa sua irmã de sua casa e renega toda a aproximação entre os dois. Esta relação culmina então na fase final do filme, onde Sissy aparenta uma tentativa de suicídio, onde Brandon sofre muito e evidencia o quanto se importa com a irmã.

 

Análise Psicanalítica

 

Durante profundos momentos reflexivos frente as teorias e construtos teóricos sobre as estruturas de personalidades, compreende-se que Brandon, não é um Perverso, mas, Neurótico Obsessivo Compulsivo. Isso evidencia-se de forma clara, quando observamos que o Ego e o Id de Brandon, estão em conflito, o Id como a gênese das pulsões não manifesta conflitos, pois, é regido pelo princípio do prazer e é inconsciente, enquanto o Ego, é regido pelo princípio da realidade e é instância psíquica mediadora entre os desejos pulsionais do Id, os imperativos do Superego e o mundo exterior processando as identificações e gerando os mecanismos de defesa.

É justamente este o ponto onde queremos chegar, pois, a Neurose obsessiva surge justamente deste conflito, entre o Ego tentando responder aos imperativos do Superego (Nosso construto moral), regido pelo princípio da realidade e as pulsões do Id. Em Brandon, podemos perceber que este conflito entre Ego – Superego, teve início durante a infância dele, não há cenas que remetem a vida infantil dos personagens, contudo, nota-se que ao falar da família, os irmãos acabam por reviver processos traumáticos, sugere-se então que durante o processo edipiano de Brandon, ele tenha deslocado o desejo incestuoso antes posto no lugar materno, para a figura feminina da irmã Sissy, o que corrobora para um comportamento obsessivo é o isolamento social, geralmente presente como sintoma de uma neurose obsessiva compulsiva, e para Brandon, sua compulsão gira na esfera do sexo.

O Sintoma, como diria Lacan, é tudo aquilo que envelopa a fantasia, o gozo, é o significante de um significado recalcado da consciência do sujeito (Lacan, 1953/1998, p. 282). Em sua sintomatologia, Brandon explicita sua neurose obsessiva, através de comportamentos compulsivos, principalmente quando há os gatilhos estressores, há uma necessidade compulsiva de masturbar-se frequentemente, onde ele realizou tais atos em banheiros públicos, no metrô, em sua casa, em bares e outros lugares. A presença da pornografia também, a excitação visual e o corpo feminino, são como objetos para Brandon, contudo, aqui não é como em uma estrutura perversa onde este objeto sexual, surge como fonte de Sadismo ou Masoquismo, para Brandon, tais comportamentos causavam angústia destrutiva em sua vida e para seu Ego, o sintoma mais evidente desta angústia é a dificuldade em comprometer-se em uma relação afetiva, que não envolva apenas sexo, o aprofundamento de suas relações nunca existiram, pois, assim Brandon, teria de resolver seu conflito edipiano com a irmã.

Além disto, na neurose obsessiva, ocorre a Inibição, onde ocorre a distinta separação entre Amor e Sexo, Brandon como neurótico obsessivo, compreende as manifestações de amor, separadas do sexo, por isto, tão impossível é para ele relacionar-se com a sua colega de trabalho, visto que, se ele se possibilitasse amá-la, não poderia exercer o sexo com ela, da forma como ele vivencia o sexo, exacerbadamente. Nestas representações, o significado de um não pode corromper o outro, assim, Brandon ao se deparar com a junção destes dois, é obrigado a retornar ao seu conflito edipiano, assim, a angústia se amplia e ele desloca então, o significante de amor, para longe do sexo.

De acordo com Freud, a inibição é o resultado da aproximação com o desejo reprimido (a figura materna, deslocada para a irmã Sissy), oriunda do complexo de édipo não resolvido. O sexo então para Brandon, surge como uma fuga a aproximação amorosa, que lhe faria lidar diretamente com o sintoma, desta forma, busca por parceiros que não possuem ligação com ele, pois, um relacionamento lhe retiraria a compulsão, sobrando apenas a angústia de lidar com este sintoma, o que hipoteticamente, lhe faria ter uma passagem ao ato, como forma de aliviar a pulsão de morte, tão presente nele, como nas cenas na qual ele, busca por esta flagelação de seu corpo físico, como forma de punição advinda de seu superego, em que, procura uma briga no bar, como também, na cena em que faz sexo com duas mulheres e transfigura dor, angústia, rejeição ao sexo, contudo, não consegue parar, impelido por sua compulsão, o que denota também, a realização de uma pulsão de morte latente.

Outro conceito crucial presente na ficção, é a Angústia, que permeia toda a obra. Há cenas em que observamos isto, principalmente quando ele tem de lidar com seus sentimentos ambivalentes em relação a irmã, ao censurar o envolvimento de Sissy com seu chefe, Brandon, literalmente utiliza a moralidade de seu superego, ao identificar-se com a vida de seu patrão, observando que, a irmã jamais poderia envolver-se com alguém como ele, numa crítica a posição de objeto de desejo que ele colocou a irmã, assim, ao ter de recalcar este desejo incestuoso, a angústia surge, como forma de esvaziamento da pulsão diante do ego, que, segundo Freud, seria a angústia moral.

Um personagem passível de análise, é também, Sissy, a irmã de Brandon. Ela sim, podemos observar uma estrutura de personalidade perversa, onde, o masoquismo presente em suas relações faz jus a teoria visto que, todos os seus relacionamentos são problemáticos e a mesma, sabe que eles não são produtivos, envolve-se com o chefe do irmão, mesmo sabendo que ele é casado e não poderia responder as suas expectativas, seus ex-namorado, lhe agredia e ela, liga para ele em uma cena e pede, para que ele apenas diga que quer ficar com ela, pois, somente assim ela poderia existir, que somente ver ele, serviria para alegrá-la. A relação com o irmão, também simboliza isto, pois, o irmão em seus sentimentos ambivalentes, demonstra hostilidade para tentar afastar ela, Sissy por sua vez, sempre retorna ao irmão, pois, ele também é seu objeto de desejo, visto que, sabe que com ele, ela poderá sempre alimentar esta pulsão de morte, quando há a ruptura entre esta relação, a angústia se faz presente também nela e a partir disto, ela tem uma passagem ao ato, em um fim autodestrutivo, pode-se também, interpretar como uma passagem ao ato da neurose, visto que, poderia ser uma forma de chamar atenção em uma neurose conversiva, contudo, observa-se que, ela não quer alimentar o seu desejo, mas o objeto a, o outro, diferente da neurose conversiva, onde a pulsão de desejo, realiza-se no narcisismo secundário e não, no primário, como nos perversos.

Portanto, esta obra, torna-se extremamente significativa, para quem, gostaria de aprofundar-se numa análise sob o viés da psicanálise, visto que, é permeada de conceitos cruciais, assim, a “Vergonha”, que é a tradução para o título do filme, “Shame”, abre possibilidades para várias perguntas, qual seria esta vergonha na verdade?

 

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO

 

LACAN, J. (1998). Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. Em Escrito. (pp. 238-324). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Original publicado em 1953).

 

FREUD, S. Inibição, sintoma e ansiedade. In: Obras Psicológicas Completas. Edição Standart Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996 [1926].

 

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