terça-feira, 11 de maio de 2021

Análise do filme: "Cisne Negro".

 ANÁLISE PSICOPATOLÓGICA REFERENTE AO FILME CISNE NEGRO

Anderson de Oliveira Pereira

SINOPSE

Para que ocorra uma boa compreensão sobre o filme, faz-se necessário adentrar no resumo do filme. Cisne Negro, é um filme do diretor Darren Aranofsky, 2011.Sendo altamente premiado, inclusive, Natalie Portman, que interpretou Nina, a protagonista do filme, recebey o oscar por melhor atuação de atriz. 

Nina Sayers é bailarina de uma companhia nova-iorquina de ballet. Sua vida é inteiramente dedicada à dança. Mora com a mãe. O diretor artístico da companhia (Thomas) decide substituir a bailarina principal, Beth, na apresentação de abertura da temporada.  Nina é sua primeira escolha, mas surge uma concorrente, a nova bailarina Lily, que deixa Thomas impressionado. O Lago dos Cisnes requer uma bailarina que seja capaz de interpretar tanto o cisne branco com inocência e graça, quanto o Cisne Negro que requer malícia e sensualidade. Nina se encaixa perfeitamente no papel de cisne branco, porém Lily é a personificação do Cisne Negro. As duas desenvolvem uma amizade conflituosa, repleta de rivalidade, competição, ciúme, e Nina é forçada a entrar em contato com seu lado mais sombrio.

Cisne Negro faz uma viagem emocionante e aterrorizante à mente de uma jovem bailarina. A bailarina é movida pelo desejo de superação, por tornar-se a primeira bailarina. Interpretar Odette não é problema, uma vez que ela partilha com a personagem suas qualidades metódicas e virginais, é pura, ingênua e inocente. O desafio é a interpretação de Odile, o Cisne Negro, a encarnação da sensualidade e sedução. Nina é uma garota amargurada, seriamente perturbada, obcecada pela perfeição. O filme começa sob um foco de luz que parece desesperado em focar a face da bailarina, mas sem conseguir iluminar a angústia dos seus olhos e a dor de sua face.   Essa bailarina que se vê obrigada a partir nessa viagem angustiante em que tem que deixar um lado seu, que até aquele momento ela própria desconhecia, tomar conta de si. Seu reflexo negro (como o cisne que precisa interpretar).

O espectador acompanha a dor das suas articulações estalando ao acordar, a preparação dolorida das sapatilhas cheias de rasgos e dobras, dos diversos machucados, do suor, da disputa entre as bailarinas, da disciplina e do peso por trás daqueles movimentos que enchem o palco de beleza. Porém o filme é muito mais sobre esse impulso violento e destrutivo que carrega a protagonista em direção a essa nova pessoa que ela não desconfiava ser, mesmo que isso lhe custe a sanidade. No pesadelo do início, ela é tomada pela figura amedrontadora do feiticeiro.  Ela acorda assustada. Conta para a mãe que teve um sonho louco, que estava dançando o cisne branco, mas era uma coreografia diferente, mais parecida com a do Bolshoi – o prólogo, quando Rothbart coloca o feitiço nela. Em seguida aparece seu quarto. Um quarto de menina, todo rosa, cheio de bichinhos. Menina – Nina que não teve chance de crescer.

Vive dominada por uma mãe controladora, intrusiva e invejosa, que teve uma gravidez indesejada aos 28 anos, no auge da carreira e isto a deixou frustrada e amarga. Ou seja, Nina para nascer, matou o sonho da mãe de ser a Rainha-CisneA mãe então quer fazer da filha o que não pode ser. Superprotege, mas é uma superproteção que disfarça uma rejeição e não dá à filha o direito de ter sua própria individualidade, de crescer, tornar-se mulher, assumir a sua sensualidade. Todo o seu lado impulsivo, agressivo, que todos nós temos, e que precisamos ter para crescer, é totalmente negado e cindido.  Todo esse lado está interditado, como um feitiço.  Ela não consegue integrar. Não consegue integrar porque ainda encontra-se fundida na mãe, numa simbiose doentia, numa corrente de amor e ódio. Nina que pretende a independência, mas a culpa pelos ataques fantasiados e reais à mãe, não o permitem.  Assim como Odette, enclausurada num corpo de cisne, Nina tem seus desejos interditados, enclausurados num cárcere psíquico, assim como as pacientes anoréxicas e bulímicas, onde o caminho pulsional está interditado geralmente por conflitos importantes com as figuras materna e paterna.

No filme, chama à atenção a ausência total e completa do pai. Mas Thomas, o professor preenche a figura paterna. O professor que a seduz, ela quer ter uma relação sexual com ele para poder se sentir viva e se realizar, mas ao fazer isto sente que está tendo relações com o pai e; portanto, estará ocupando o lugar da mãe e, aí, tendo que se matar.  A culpa é insuportável, e na sua imaginação doentia ela não a suporta tendo então que dar fim à sua vida. O professor se confunde com o pai. Ela não consegue discriminar. Com o filme, acompanhamos a desintegração da saúde mental de Nina, devido à pressão do diretor, às duplas mensagens da mãe que superprotege e mal disfarça uma rejeição violenta e a chegada de uma concorrente. O diretor e o fotógrafo não economizam em uma inquietação das imagens e nas opções visuais que formam esse caminho, ilustrando essa viagem sem volta.

A mãe vê arranhões em suas costas e a chama de “garota doce”. Ela tem comportamentos autodestrutivos, como podemos ver nas várias cenas em que ela arranca a pele, rasga a sapatilha, rasga a unha do pé, vomita, etc. Tudo isso é uma tentativa de expulsar essa mãe violenta e rejeitadora. No Ballet precisa ser agressiva inclusive porque toma o lugar da primeira bailarina, Beth que é aposentada. Ela se culpa por ocupar o lugar da Beth, assim como se culpa por ocupar o lugar da mãe.

Nina tem que lidar também com uma rival quando chega Lily. Já que chega essa nova garota, ela vai para o banheiro vomitar.  A mãe telefona o tempo todo e ela também telefona para a mãe. Mas ao mesmo tempo, escutamos uma conversa da mãe com outra pessoa, dizendo que as meninas não têm a magia da Beth. Aí vemos a mãe dando uma dupla mensagem, quer que a filha seja perfeita como ela gostaria de ter sido, mas ao mesmo tempo, elogia a outra, dizendo que a Beth nunca fez nada menos que perfeito. Aí neste momento tem uma cena muito interessante: Ela toda de rosa cruza no corredor com uma garota toda de preto que tem o rosto dela. Ou seja, é o seu lado negro que se encontra dissociado.  Quando chega em casa abraça a mãe e começa a chorar. Aparece aí o pé sangrando, numa tentativa de mostrar o esforço que essa garota está fazendo para ser perfeita. A mãe vai tratar do pé e diz que lembra quando tudo começou, lembra que era ela quem levava a filha a cada uma daquelas aulas, ou então ela ficaria completamente perdida, etc. Ou seja, ela devia todo aquele sucesso ao sacrifício da mãe.

Mas o diretor diz que só vê nela o cisne branco, ela é bela, assustada e frágil, faz todos os movimentos corretos, mas não se entrega. E afirma que ela tem que surpreender, transcender. Ela que tinha ido até o diretor com o batom que havia roubado da Beth, e estava mais sedutora, dá uma mordida no Thomas quando este a beija.  É neste momento que ele descobre que ela também pode ser autêntica, também pode mostrar seu lado mais impetuoso, violento e hostil. Gosta disso e resolve dar-lhe o papel de cisne negro. Na mesma hora aparece no banheiro a palavra – VADIA. Seria uma alucinação? Não seria ela se recriminando?. A cena dos quadros no quarto da mãe, cheio de auto-retratos, mostra uma mãe narcisista e, diante de tanta pressão, começa a ter alucinações, vê as figuras se mexendo, como se todas a estivessem recriminando.  Arranha mais ainda as suas costas, e a mãe vem com um enorme bolo que havia comprado para festejar. Ela não quer comer, mas a mãe ameaça jogar o bolo inteiro fora, numa grande chantagem.  Então ela come o bolo.

Começamos então a acompanhar a desintegração da saúde mental de Nina, devido ao sucesso, a ter realmente substituído a Beth, ou seja, a mãe, à enorme pressão do diretor, e a chegada de uma concorrente. Tem uma festa onde ela é apresentada como a nova rainha dos cisnes. A mãe não vai à festa. Ela vai ao banheiro arrancar a pele do dedo numa cena impressionante onde vemos o quanto ela precisa se machucar. Talvez se machucar pra se sentir viva, assim como as pessoas que se cortam.

O Thomas a convida para tomar um drinque em sua casa, ela encontra Beth no hall da escada e esta a chama de vadia, pergunta o que foi que ela fez para conseguir o papel, etc. Ela vai realmente até a casa dele e ele tenta seduzi-la, mas percebe que ela ainda é virgem. Manda que ela vá para casa e se masturbe. Ela está começando a enfrentar a mãe, a sair com a amiga apesar da mãe tentar não deixar, vai para uma balada, aceita uma droga (vemos aí que Lily expressava o mundo da destrutividade interna da própria Nina), dança, se solta e escuta a mãe a chamar: “Garota doce, garota doce”. Volta para a casa e a mãe a enche de perguntas: Aonde foi? Tem idéia de que horas são? A mãe é super invasiva e ela coloca uma espécie de cabo de vassoura na porta querendo ter sua própria privacidade.

As cenas de masturbação, assim como as cenas de sexo com a Lily me pareceram uma tentativa dela conhecer o próprio corpo, uma tentativa de começar a conhecer a sua sexualidade. Aliás, na cena de sexo se prestarmos bem a atenção vamos ver que ela está transando com ela mesma, o rosto de Lily e o dela se confundem e aí ela mesma a chama de garota meiga, numa mistura também com a figura da mãe. Ela entra num estado de desorientação, não sabe mais se foi fantasia ou realidade. A culpa é tanta, que depois da primeira cena de masturbação ela alucina que a mãe está ali no quarto. No dia seguinte em que ela ousou desobedecer à mãe é o dia de um ensaio importante e a mãe não a acorda. O castigo é imenso! A mãe mostra que na realidade quer que a filha perca o papel, a mãe invejosa, a mesma mãe que dá o bolo, que fala que as meninas não têm a magia da Beth, que não vai à festa onde a filha é apresentada como a Rainha Cisne e que não a acorda no ensaio. Quebra a caixinha de música, joga fora seus bichos de pelúcia. Parece que está dando “adeus” à garotinha doce e meiga. Mas tudo isso lhe é imposto de fora para dentro, e ela não aguenta. Lily quer ser sua substituta, mas ela com medo de ser realmente substituída, começa a ensaiar desesperadamente, e começa a alucinar. Ouve gargalhadas quando as luzes se apagam, vê ou alucina o Thomas, o professor, o pai, transando com a Lily, ou com a rival , com a mãe, numa nítida cena primária onde se sente totalmente excluída e aí vai piorando. O clima vai ficando cada vez mais enlouquecido.

Tem uma cena onde se masturba na banheira e de repente vê umas gotas de sangue pingando, e vê um rosto que também é seu próprio rosto. O seu Eu destrutivo, a tinha machucado outra vez. Vai pedir desculpas à Beth, devolve as coisas que havia roubado e vê Beth se matar, com a lixa que ela havia devolvido. Triunfar sobre Beth, a aposentada Rainha-mãe, é sentido como um triunfo sobre a mãe. Vai devolver os objetos que havia roubado de Beth, para mostrar que ela imaginava não apenas estar roubando o lugar de Beth, mas também estava roubando o sonho da mãe. Ela está matando a mãe. Aí o conflito piora, começa a se arranhar cada vez mais, vê penas saindo de suas costas, vê seus pés tornando-se pés de cisne. Tem a cena das pernas se quebrando, significando um esfacelamento de ego.

A mãe atrás dela, quer saber se o professor está se aproveitando dela, e aí diz: “Só quero que você não cometa o mesmo erro que eu. Eu tinha 28 anos, estava no auge da carreira e tive que desistir para ter você”. Começa então a delirar, e briga com a Lily no banheiro, quebra o espelho e na sua alucinação pensa que matou a sua rival. Se prestarmos bem a atenção nesta cena, vemos novamente que é ela mesma, o rosto é o da Nina numa luta de morte entre o cisne negro e o cisne branco.  Aí, depois de matar o cisne branco, ela dança o cisne negro como nunca havia dançado. Foi maravilhoso, ela encarna tanto o papel que chega a alucinar que está criando penas. Beija o Thomas com sensualidade.

No final ainda diz que sentiu a perfeição – “foi perfeito”. E Morre! Precisou morrer porque estava interditada de mostrar seu cisne negro. Ou seja, para não matar a mãe, matou a si própria.


ANÁLISE DO CASO.

 

 

“ O esquizofrênico é louco aos nossos olhos,   porque aos seus, sua vinda a este mundo não tem sentido assuntível” .

                                                          - Perrier ¹

 

Muitos são os teóricos e autores que buscam pela gênese da Psicose, alguns aproximam-se com eficácia usando suas teorias para elucidar melhor como se elabora esse fenômeno da Psique humana, incluindo o grande explanador da Psicanálise Sigmund Freud, Carl Gustav Jung, J. Lacan, entre outros. Mas o que considera-se é que a Psicose desdobra-se em segredos tão soterrados na humanidade, que não há total certeza sobre muitas coisas remetentes à ela.

A Personagem da obra; Nina, caracteriza-se exatamente como uma pessoa que possui uma psicopatologia de cunho psicótico, enquadrando-se possivelmente no F20.0 (Esquizofrenia Paranóide); segundo a Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 (1993, pág. 88). Para uma melhor acepção sobre o que seria a Psicose, segue-se alguns comentários de autores inter-relacionados ao campo de estudo sobre os Transtornos e Estrutura Psicótica.

Segundo Dalgalarrondo, “as síndromes psicóticas caracterizam-se por sintomas típicos como alucinações, delírios, pensamento desorganizado e comportamento claramente bizarro”. (2008. pág.327 – cap:30). A psicose mais comum, por ter uma grande frequência nas clínicas é certamente a Esquizofrenia. Kurt Schneider elencou alguns sintomas de primeira ordem, para uma melhor identificação do transtorno como; percepção delirante, alucinações auditivas ou vozes de comando, eco do pensamento, roubo do pensamento, vivencias de influência na esfera corporal ou ideativa.

No que concerne ao CID-10 (1993, pág. 88), os sintomas mais comuns da Esquizofrenia Paranóide são:

(a)   Delírios de perseguição, referência, ascendência importante, missão especial, mudanças corporais ou ciúmes;

(b)   Vozes alucinatórias que ameaçam o paciente ou lhe dão ordens ou alucinações visuais sem conteúdo verbal, tais como assobios, zunidos ou risos;

(c)   Alucinações olfativas ou gustativas, de sensações sexuais ou outras corporais; alucinações visuais podem ocorrer, porém raramente são predominantes.

 

Diante de uma perspectiva Psicanalítica, observamos intensos conceitos sendo amplamente trabalhados no transcorrer da obra, inclusive, o próprio diretor Darren Aronofsky; durante entrevista concedida ao canal televisivo norte-americano BBC, esclareceu que todo o longa-metragem foi embasado e dirigido por sob uma ótica Psicanalítica clássica. Há conceitos utilizados por Freud como; Narcisismo Secundário, Transferência Projetiva e Castração Materna.

Agregando conjuntamente a Freud; Jacques Lacan, nos transfere conceitos como Função Espelho, “Doppelganger” ou O Duplo, Nome-do-pai e Função Materna. Numa abordagem Analítica Junguiana; de Carl Gustav Jung, encontramos conceitos inteiramente concomitantes com as nuances de sintomas do filme, pois, encontra-se conceitos como a Sombra (Lado sombrio), Persona (Máscara), Arquétipo Anima (Energia Feminina - Criativa), Arquétipo Animus ( Energia Masculina - Destrutiva), Inconsciente coletivo e Self ( Individuação).

Seccionaremos cada um desses conceitos, aliando-os ás cenas expostas da obra, conforme a sintomatologia dos personagens. Um personagem crucial para o entendimento da dinâmica psíquica de Nina é sua própria mãe Érika, observamos que a progenitora possui um laço simbiótico destrutivo para com a filha, ela deveria servir de apoia à maternidade e a identidade de ser desejante, que segundo Freud, seriam os dois destinos possíveis da mulher (FREUD, 1933-1932). A gravidez dela não tinha um valor sublimatório de desejo, ao interromper sua carreira profissional pela gestação, amargurou-se e então passou a projetar na filha, suas expectativas profissionais. Segundo Freud em Sobre o Narcisismo (Freud, 1914), cita a imortalidade do Ego, sendo reprimida pela realidade que renasce ao projetar-se nos filhos, destinados a tirar os pais das próprias frustrações passadas. Sendo assim, ela lamenta a morte do seu próprio desejo e o faz renascer para ser realizado através da filha.

A Projeção é um mecanismo de defesa do Ego, onde um evento doloroso nos impede de desfrutar do gozo libidinal; tende-se a projetar em um objeto externo, afim de realizar o gozo por meio desse objeto ou direcionar a culpa ao mesmo. É evidente o quanto Érika projeto em Nina seus anseios frustrados e como desloca a culpa, ódio e rancor para sua progênita. Constata-se traços narcísicos em Érika, visto que em uma das cenas em que Nina, chega em casa e busca por sua mãe nos cômodos da casa, para falar-lhe sobre a escalação do papel de Rainha Cisne, a câmera nos dá um enfoque em alguns quadros de autorretrato de sua mãe, com olhos grandes e persecutórios para com Nina, diante disso caracterizamos pontos de Narcisismo Secundário, onde o gozo é vivido através da importância social do ballet e como a mãe, foi quem disponibilizou todo esse suposto status de bailarina perfeita para a filha, há evidencias de Narcisismo também, em um dos momentos em que ela diz a Nina que lembra quando tudo começou, lembra que era ela quem levava a filha a cada uma daquelas aulas, ou então ela ficaria completamente perdida, etc. Ou seja, ela devia todo aquele sucesso ao sacrifício da mãe, nota-se o grau de responsabilidade que Érika projeta em Nina, para que a mesma sempre seja grata por ela chegar onde chegou, por conseguir ser a Rainha Cisne, tirando toda o mérito de Nina.

Érika mantinha uma constante castração materna diante de sua filha, alienando-a a figura do objeto da necessidade, e jamais de objeto de desejo, onde Nina unificou sua imagem a da mãe, em um transporte narcísico da realização de desejo da mãe, não constituindo-se enquanto sujeito, mas ainda num processo primário de extensão do seio materno; numa simbiose total com a mãe, que alimentava essa necessidade de assexualização de Nina, impedindo-a de redigir sua erogenização e alienação no desejo materno, a falta da figura paterna beneficiou para que a alienação se estabelece-se no objeto de necessidade primária. Aqui consequentemente o seio materno adotou a alienação, estando Nina entre uma linearidade entre amor e ódio de objeto materno, onde não houve uma estruturação de um ego próprio, mas a adoção do Ego da própria Mãe.

J. Lacan, nos elucida quanto a Função espelho que observamos com Nina e sua mãe, esteve extremamente fragmentado, com toda a pressão exercida pelo Superego da mãe e o controle exorbitante a todo momento, Nina não conseguia visualizar como unidade os aspectos femininos e maternos que a mãe deveria espelhar, mas apenas um olhar persecutório diante dela, dessa forma não teve em quem se espelhar enquanto objeto de desejo, não há um falo para ser desejado, consequentemente, não há uma narcisação do sujeito, Nina não constituiu-se enquanto sujeito, por isso, ela rouba o batom de Beth, pois visualiza na mulher uma figura feminina mais velha e com aspectos femininos bem delineados, projeta em lily o segundo espelhamento, uma sexualidade que lhe foi reprimida constantemente, mas em todos esses momentos, o espelhamento foi degradado, desmembrado e nunca por inteiro, sempre havendo falhas na constituição de Nina como um sujeito por inteiro, dessa forma, ela sempre se veria ligada ao corpo da mãe, como uma só. Atacar a mãe, seria se atacar, deixar-se descobrir a sexualidade seria roubar o lugar da mãe enquanto proprietária de função materna, conhecendo apenas a imposição, se Érika, não tivesse projetado tantas expectativas em Nina ou mesmo, tivesse apresentado a narcisação primária, com afeto e prazer, Nina talvez conseguiria estabelecer o objeto de desejo e não a alienação no objeto materno. Diante disso, Nina estabeleceu um Transtorno Alimentar, a Anorexia. Segundo Ana Maria Rudge e Betty Fuks (2013), “Está presente na Anorexia, um Superego extremamente feroz que incita à obediência, e cujos mandatos de autodestruição, muitas vezes, levam efetivamente a morte, a Anorexia tem como função estabelecer um corte ou um furo no Outro...”. Nota-se aqui que Nina, estava tentando estabelecer o corte com Objeto Materno que possibilitasse a realização do desejo, numa tentativa de constituir-se como sujeito pleno de sua vida, mas a pulsão de morte presente no ID de Nina conjunto com sua libido crescente, foi extremamente destrutiva para o Ego frágil dela, acarretando num surto psicótico.

Observa-se o conceito O Duplo de J. Lacan, onde Nina logo no momento inicial do filme, durante seu sonho, desdobra-se em inúmeras partes espelhadas, com sombreamento e luzes que emergem de suas costas, enquanto dança. Depois ao acordar, resolve se alongar na sala, de frente para o espelho, enquanto monologa sobre seu sonho, a câmera incide na imagem da mesma subdivida em duas, enquadrando-se na imagem de sua própria mãe, nos indicando que o outro de Nina, seria sua mãe, numa dissociação narcísica do estádio do espelho, não obtendo um reconhecimento de seu próprio corpo enquanto sujeito. Outra cena bem característica onde nota-se o fenômeno O Duplo é a cena em que Lily reflete-se de costas no reflexo de Nina no metrô, logo depois no espelho do camarim e depois na cena em que masturba-se em casa, num delírio sexual com Lily, mas neste pequeno ponto é que nota-se que Lily é seu Duplo, seu Outro, no qual Nina projeta-se como forma de reconhecimento, tentando constituir-se enquanto sujeito, mas, a dissociação de sua própria imagem, é desmembrada, estilhaçada como no espelho quebrado em pedaços no camarim.

J. Lacan, explana muito bem como a função paterna, especificamente o conceito Nome-do-pai, é percursor de uma estruturação adequada para a personalidade com a resolução do conflito Edipiano. Observa-se que, o diretor Thomas exerceu esse papel diante de Nina, como sua figura paterna, antes inexistente em sua vida, deixando-lhe a sensação de vazio e sucção, representando uma ferida no corpo materno. O Complexo de Édipo faz do pai o agente da proibição que o torna impossível acessar o objeto-causa-de-desejo, na análise estrutural de Lacan mostra que o pai não é quem garante a lei simbólica, mas é o único que autoriza desejo. “A verdadeira função do Pai… É, fundamentalmente, unir (e não se opor) um desejo à Lei”, escreveu ele em “Subversão do sujeito e dialética do desejo” (Lacan, p. 309).

Dessa forma, Thomas surge como a simbolização da liberação do gozo reprimido por anos, do Édipo que não foi constituído estruturalmente, quando ele a instiga beijando-a algumas pulsões oriundas do ID acabam surgindo e fazendo-a entrar em conflito com o Superego da mãe, fazendo-a sentir-se confusa, por estar querendo tomar o lugar da mãe como única capaz de ter sexualidade e feminilidade. Em uma cena, ela até mesmo pega uma barra de ferro e tenta colocar contra a porta, como forma de libertar-se da contante vigia da mãe, tentando de uma forma tardia elaborar, a simbolização do Nome-do-pai que o diretor despertou nela. Quando ele pede para que ela se masturbe, está liberando o desejo dela, por isto, nessa cena, ela acaba vendo a imagem da mãe, como o Outro, já que são uma só, ela não poderia se tocar, sem tocar a mãe em cossonância. Como seu Ego é frágil ou inexistência de seu próprio Ego, e todos esse conflitos acabam desestabilizando cada vez mais a frágil estrutura de sua personalidade, desencadeando então em alucinações e delírios, pois seu ego inexistente não consegue mais filtrar as pulsões vindas de seu ID desperto, que reprimiu-se durante anos e a pressão e olhar persecutório do Superego de sua mãe, cobrando-a para regredir ao seu estado assexuado e infantil.

Numa perspectiva Analítica Junguiana, Nina claramente adota a Persona de filha perfeita e de bailarina excepcional; Persona é o conceito pela qual o Sujeito adota Máscaras sociais e papéis que lhe designam, para que consiga lidar com sua psicodinâmica de forma adequada sem prejuízos a si e aos outros. Nota-se esse aspecto sendo utilizado, quando Lily apresenta alguns amigos dela a Nina, na balada e eles perguntam “Quem é você?”, no que ela responde “Sou uma bailarina”, Nina introjetou em si de tal modo essa Máscara de bailarina perfeita, que sua mãe acabou projetando nela que não conseguia visualizar-se enquanto sujeito próprio, com suas próprias características e aspectos.

Um fator a ser salientado, é o Arquétipo Anima presente na fase inicial do filme, onde Nina representa toda a pureza, feminilidade, pudor e delicadeza, quase que infantil, o que o próprio diretor disse caracterizá-la exatamente como o Cisne Branco, mas quanto ao aspecto mais sensual, sombrio e destrutivo que Thomas queria que ela deixasse fluir, só veio surgir quando Nina, estava sob os delírios e alucinações, quando o Arquétipo Animus extravasava-se em uma onda de criatividade, sensualidade e destrutividade que Nina não conseguiu equilibrar, por não ter um Ego totalmente formado, estável e maduro, se ela possuísse um Ego equilibrado, conseguiria utilizar a força, sensualidade e criatividade bruta do Animus, com a delicadeza e pureza feminina e mais dócil do Anima, com excelência, representando bem os dois papéis e saindo ilesa da destruição presente no Animus.

O conceito do Arquétipo Sombra de Jung, esteve presente durante todo o transcorrer do longa, onde desde o início da trama, durante seu sonho, observamos características da expressão de seu lado sombrio emergindo ao poucos, durante a cena da caminhada que ela faz e cruza com sua versão mais sensual e sombria no túnel, durante todas as cenas em que olha-se no espelho e começa ver-se como o Cisne Negro, durante as vezes em que Projeta todo seu conteúdo sombrio, reprimido e que a envergonharia em Lily, projetando nela a sensualidade reprimida pela mãe, seu ódio materno, sua vontade de ter escolha própria, projeta também sua paranoia nos outros, como forma de auto julgamento, Nina busca pelo alcance da perfeição, como sendo seu processo de Individuação, seu Self, no qual só consegue alcançar durante sua morte, quando olha nos olhos da mãe, depois de ter executado com maestria dos dois papéis, utilizando as energias do Anima e Animus conjuntamente, integrando-se totalmente em um único ser, alcançando o estado de individuação ou de elaboração total de seu Self.

No que concerne a toda a sintomatologia presente de Nina na obra, podemos observar um grande traço persecutório instalado em sua Psique, oriunda de má estruturação e da alienação no objeto materno, há cenas em que os delírios são evidentes, como quando ela olha-se no espelho e observa penas crescendo de suas costas, seus olhos ficando vermelhos, em uma alucinação visual, o roubo de pensamentos, quando acha que sua mãe estava escutando o que a mesma estava pensando.

Outro sintoma bem definido de que ela acabou por desenvolver uma Esquizofrenia, foi justamente pelo autoa-gressividade presente nos momentos em que acabava por se arranhar, arrancar pedaços de cutículas das unhas, como forma de expulsão dos delírios. Nina, enquadra-se no transtorno por ter esses delírios persecutórios; como quando ela olha para os colegas durante a dança e acha que os mesmo estão julgando-a, por ter laços sociais debilitados, em todas as esferas de sua vida, como os problemas relacionais com a mãe, com seus colegas de trabalho e em outros que não foram visualizados no filme e seus delírios de ruína, quando acha que não é boa o suficiente para exercer os papéis, todas essas características presentes possibilitam um diagnóstico concreto sobre Nina ter desenvolvido Esquizofrenia Paranóide.

 

CONCLUSÃO.

 

Diante de todos os expostos acima, podemos observar como toda a Psicodinâmica de Nina Sayers estava totalmente debilitada diante, de vário sintomas presentes na Esquizofrenia, seu histórico familiar é de extremos abusos emocionais oriundos de uma má relação maternal, onde os papéis paternos, não foram bem desempenhados, acarretando em grandes entraves para o desenvolvimento de uma personalidade adequada, o filme presente, foi grandemente esclarecedor, quanto a uma ótica Psicanalítica sobre a possível origem de um quadro Psicótico tão complexo quanto a Esquizofrenia, nota-se como o filme foi totalmente plausível ao direcionar todo o olhar, por sob como a própria Nina via sua vida, fazendo-nos compreender como os delírios e alucinações são tão aterrorizantes para quem presencia tal atividade psíquica e como os laços familiares são tão responsáveis por uma boa formação da estrutura psíquica dos indivíduos, durante a primeira vez em que assiste-se a obra, não é possível compreender de uma totalidade os fenômenos expostos, mas, ao ler os conceitos e teorias, comparando-as a todas as cenas, podemos ver como, a Psicose ainda é inteiramente singular, levantando tantas perguntas a serem respondidas, fazendo-nos pensar em quantas coisas, poderiam ter sido evitadas, para que o fim trágico não tivesse sido consumado diante de toda a vida de sofrimento de Nina. Um filme totalmente angustiante, promissor e esclarecedor, muito ainda faltou a ser abordado para opinar sobre o filme, tantos conceitos que podem ser aplicados, mas que estenderia por demais essa análise.

No mais, conclui-se que o filme foi de extrema importância para uma boa visualização sobre essa dinâmica psíquica de uma pessoa Esquizofrenica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

 

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